Cap. 1 - Meu Reino por um Médico





A admissão não estava nem melhor nem pior do que todos os dias. Uma fila de gestantes na recepção, as duas salas em atendimento, o pré-parto com todos os leitos ocupados, quatro gestantes sentadas em cadeiras de plástico e duas em macas no corredor. Ah, não posso esquecer do “banco da esperança” onde mais quatro gestantes, uma delas com óbito fetal, aguardavam uma vaga em outro hospital. Normal. Isso acontece todos os dias. O povo não para de ter filhos e os hospitais continuam os mesmos e blah, blah, blah. A conversa de sempre.

O que ninguém podia adivinhar é que estávamos enfrentando uma baita crise: A falta de médicos nos plantões. Mas porque não tem médico? perguntam os pacientes, e está claro que não vou entrar em detalhes sobre os salários baixos que obrigam os médicos a procurar outros hospitais ou clínicas particulares. De que adianta? As pacientes só querem saber se alguém vai atendê-las, e quando.

O aviso fixado na porta do nosso dormitório – dois beliches num quadrado de paredes mofadas e sem janela – declarava em letras vermelhas: para o próximo plantão, contamos apenas com uma médica e um residente. Resumindo, caos total. 

Entre um atendimento e outro eu ligava pra um e outro, usando meu celular particular, até que a bateria acabou. Foi justamente na hora em que eu estava fuçando minha bolsa atrás do dito cujo – aparentemente desaparecido do nosso sistema solar – que Rose, a enfermeira, abriu a porta e avisou da chegada de uma paciente em estado grave: emergência.

Minha primeira preocupação foi saber se a mulher da limpeza tinha trocado os lençóis da mesa de exame, que estavam em petição de miséria.

- Ih, Doutora. Ela nem apareceu por aqui. Já deixei recado lá pelo centro cirúrgico,mas até agora, nada.

Suspirei porque não podia xingar. Mandei colocar a paciente na mesa assim mesmo.

Brigite Bardot. Podem crer, esse era o nome da morena bonita de um metro e oitenta, que entrou apoiada pelos braços da acompanhante e da enfermeira. Minha primeira ordem foi que a acompanhante saísse. Ela entrou chorando, tão descontrolada que não entendi qual era o parentesco dela com a paciente.

Brigite deitou na maca e e a enfermeira teve que ajudá-la a tirar a calcinha enquanto eu lia a ficha: vinte e dois anos, três filhos vivos e grávida do quarto. Quero dizer, esteve grávida do quarto, porque só pelo tamanho do sangramento e palidez dela eu sabia que era um aborto – e dos feios. Ela parecia mais morta que viva.

Comecei o exame perguntando o ela o que tinha tomado, enquanto os pedaços de placenta saíam agarrados na minha luva. Aquele tinha sido um bebê grande – cinco ou seis meses, talvez. 

A moça contou, num fiapo de voz, que tinha tomado um chá. Um chá de cogumelo. Claro. Todas dizem a mesma coisa. Mas eu disse logo que chá não fazia aquele estrago. Tinha ido na curiosa ou tinha recebido home careBrigite ficou calada por uns segundos, mas logo respondeu que tinha ido na curiosa. 

Perguntei se a “profissional” tinha colocado alguma coisa na vagina e ela negou. Fiz cara de brava ( de vez em quando tenho que deixar minha doçura de lado) e ela confessou que a mulher colocara um líquido sim, mas que ela não sabia o que era. Ela não sabia, mas eu imaginava. Podia ser cloro, formol, sabão de pia, qualquer uma dessas substâncias altamente recomendáveis para se injetar dentro de um ser humano. Não aguentei e perguntei:

- E quanto você pagou pelo serviço?

- Duzentos e cinquenta reais.

Na promoção! Ontem veio uma que pagou quatrocentos.

Mas eu não estava ali para julgar Brigite, e nem conhecia a vida dela para saber por que depois de três filhos, ela não usava nenhum método preventivo . Aliás, essa foi uma das primeiras perguntas que fiz e ela disse que não usava nada. Não podia tomar pílula e o marido odeia camisinha...

Por alguma razão – se eu fosse escritora e não médica podia inventar mil razões românticas, cômicas ou trágicas – Brigite tinha esperado o bebê chegar ao sexto mês pra dar cabo de sua vida. Vai saber.

Enfim, depois de terminado o exame e de ouvir Brigite confessar  que o corpo do bebê tinha ficado no vaso sanitário de sua casa, pedi a Rose que acionasse o centro cirúrgico para a curetagem. Brigite ia precisar também do banco de sangue e uma maca. Dos três itens, eu sabia que a maca seria o maior problema. 

Tirei as luvas, saí da sala e voltei à caça ao carregador. Afinal, ainda apareceriam muitas outras Brigites e ninguém ia querer saber o porquê dos médicos andarem escassos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 18 - Resolução de ano novo

Cap 21- Que sorte!