Cap. 18 - Resolução de ano novo


As férias acabaram mas eu trouxe algumas coisinhas de recordação: bilhões de mordidas de mosquito nas pernas e braços, pele vermelho-camarão e alguns quilinhos extras localizados principalmente na barriga. Aff!

Enfim, coloquei minha roupinha azul charmosa, no estilo saco de batata e enfrentei o calor abrasador da sala de exames com o ar-condicionado quebrado, mas não reclamei porque uma das minhas resolução de ano novo é ser uma pessoa mais calma e mais centrada. Como vocês hão de perceber, meu anjo da guarda fez questão de testar isso logo no primeiro dia.

Chego na sala de exames e Rose, a enfermeira, chama a primeira paciente. Ela entra, acompanhada do namorado, aos prantos e se contorcendo de dor. Nome, Francielle, idade, 16 anos.

Francielle mal consegue falar de tanta dor. O namorado, mudo, calado, dois olhos esbugalhados.  Depois das perguntas de praxe iniciais, fiz  a pergunta que não queria calar.

– Francielle, você tomou alguma coisa? Foi na curiosa?

Entre soluços, ela responde.

– Não doutora! Deus me livre!

­
  Hum hum…então deita ali na mesa de exames pra gente ver o que está acontecendo.

Mudo meu nome e coloco num macaco se ela não tomou alguma coisa. Examino a menina e logo de cara encontro dois comprimidos de cytotec na vagina. Eu só não ganho na loteria…injustiça.

Quando confrontei a paciente, o mundo parecia que ia acabar. Aos berros enlouquecidos, Francielle agarrava os cabelos, tentado arrancá-los todos de uma só vez.

­– Eu vou me matar! Desculpa doutora! Eu não posso ter esse filho! Eu quero morrer! Me deixem morrer!!

Os olhos do namorado só faltaram pular das órbitas enquanto ele estendia as mãos na direção de Francielle, sem saber exatamente o que fazer. Rose, minha fiel escudeira, segurou-a na maca, evitando que ela caísse no chão.

– Calma, calma, Francielle. Vamos converser. Calma!

Então ela contou que tinha sido estuprada por dois homens que moram na mesma comunidade que ela. Quando eles descobriram sobre a gravidez, mandaram o recado que ela tinha que ir morar com eles.  Claro! Imagina o orgulho desses caras (minha pele pinicava cada vez mais, sem que eu soubesse se era de ódio ou das mordidas de mosquito). Perguntei se ela conhecia os ditos cujos. Ela respondeu que eles eram do tráfico, e essa foi toda a informação que eu recebi. 

Que o fogo do inferno os consuma, pensei delicadamente respeitando minha resolução de ano novo.

– Mas doutora, eu disse a eles que não ia de jeito nenhum. Eu gosto mesmo é do meu namorado ­ – aquele que continuava completamente apatetado com a cena – e por isso eles estão ameaçando matar minha irmã e minha mãe. E agora doutora!! Eu to desesperada. Quero me matar de todo jeito.

Eu podia informá-la que o cytotec podia matar a criança mas não a ela…mas tive pena e não quis mexer o angu ainda mais. Embora não pudesse provar a história que ela contava, o desespero era verídico.

– Olha, vamos conversar. Vou chamar a psicóloga e a assistente social e vamos colocar sua mãe e irmã em uma casa de testemunhas, onde elas estarão a salvo.

Enquanto eu falava, tentava acreditar que isso resolveria o problema. Nesse momento quis, de verdade, acreditar que meninas como Francielle podiam se livrar de bandidos, como aqueles, com tanta facilidade. Mas no fundo eu duvidei que fosse ser fácil assim. 

Pedi uma ultrassonografia, para ver o estado do bebê e para comprovar a idade gestacional, já que a menina não tinha feito nenhum acompanhamento médico durante a gestação. Nem uma única consulta de pré-natal. Mas isso já é tão corriqueiro que nem me abala mais.

Francielle achava que estava com 3 meses de gravidez, mas a ultra revelou um bebê saudável de quase cinco meses. Pedi a Rose que fizesse a internação, e a encontrei já com a dor bem mais amena. No próximo plantão vou saber os finalmentes dessa história.

A segunda paciente, Carla Maria, 15 anos, entrou enquanto eu passava uma loção de aloe vera nos ombros, que estavam me matando.  Entrou e deitou direto na maca, sentindo muitas dores.  Joguei o frasco na mesa e corri para examinar. Notei que a parada era séria.

– Doutora, seja rápida por favor. Eu preciso voltar pra casa o mais rápido possível.

Essa era nova. Seja lá o que for que a esperava em casa, teria que esperar ainda mais. E foi isso que lhe disse da forma mais curta e rápida.

– É filha, você não vai a lugar nenhum. Seu bebê está nascendo.

Clara Maria estava totalmente dilatada e o bebê não queria esperar mais nada. Foi aquela correria. Mandei pra sala de parto e a residente, em questão de minutos, segurava um bebê de mais ou menos 8 meses; o que não saberíamos nunca com total certeza, já que a paciente não tinha feito pré-natal e nenhum exame de ultra. Nasceu um pouco ruinzinho, com dificuldades, mas logo se recuperou. Um menininho franzino.

Ela, muito inquieta, continuava com a ladainha de ir embora de qualquer jeito.

– Por que você tem que ir embora tão rápido, perguntei inocentemente.

– Porque deixei minha filha de uma ano em casa.

Eu não sei o que me espantou mais. Se ela, aos 15 anos, já ter uma filha de um ano, ou o fato de ter deixado a menina em casa sabe-se lá em que condições.

– Sozinha??

– Não. Deixei com o marido da madrinha do meu marido. Mas eu não conheço ele...to preocupada.

Não era pra menos. Agora Eu estava mega preocupada.

– Mas e seu marido?

– Tá lá fora na sala de recepção.

Desci eu com minha indignação e encontrei o pai da criança encostado numa pilastra. Disse que ele estava liberado e podia ir embora pra casa.

– Não doutora. Vou ficar aqui pra ver meu filho, e pra ver se a Clara precisa de alguma coisa.

Cruzei os braços e balancei a cabeça.

– Ah, não vai não. Você vai pra a casa AGORA, cuidar da sua filha.

E saí enxotando o rapazola para fora do hospital. Ele olhava para trás, assustado, enquanto eu o empurrava pelas costas. Fiquei me questionando se meu rosto vermelho-camarão o tinha assustado.

No fim, fiquei muito orgulhosa da minha pessoa. Mantive-me centrada, calma, como manda o figurino!









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