Cap. 2 - Meu Reino por um Café
Hoje é um daqueles dias que eu deveria ter
ficado na cama. Sério.
O relógio despertou, e assim que comecei a
pensar em me levantar, Sérgio me disse que queria conversar a relação. Com um
dos olhos abertos e o outro ainda tentando abrir, eu perguntei:
- Tem café?
Eu poderia ter perguntado alguma outra
coisa? Podia dar corda pra um absurdo desses? Aí fui me vestindo, tentando
separar o sonho da realidade, amarrei o cabelo num rabo de cavalo, escovei os
dentes e saí, sem tomar café. Tudo isso debaixo de uma cantilena hemorrágica
que saía da boca de Sérgio. Para ser honesta, só consigo me lembrar de uma ou
outra palavra desconexa. Ele sabe que não funciono de manhã.
Enfim, depois de pegar um super trânsito
cheguei no hospital. A primeira coisa que pensei foi na garrafa térmica no
nosso quartinho tímido. Será que alguma alma boa tinha trazido café? Mas, meu
anjo da guarda deveria ter me avisado: hoje o dia vai ser dureza e, sem café.
Com a equipe mais uma vez reduzida – acho
que os médicos desisitiram da profissão e foram todos se candidatar a uma vaga
no Big Brother – o caos já estava instalado. Caos é uma palavra que deveria ser
expulsa de nossa língua, tamanha comoção ela pode causar em qualquer narrativa.
Pois bem. Era isso mesmo. Um caos de mulheres barrigudas acompanhadas de
maridos e mães nervosas. Isso antes das oito da manhã não pode ser boa coisa.
Pode ter certeza: não é.
Varei direto pro quartinho e coloquei minha
linda roupa azul. Aquela que é capaz de mandar para o outro lado do mundo
qualquer pretendente incauto. Deve ser por isso que só consigo namorar médicos. Rose, a enfermeira, colocou a cabeça pela
porta.
-Bom dia, doutora Marina. Sinto muito mas tem uma
emergência. Chegou no carro dos bombeiros. Só sobrou você. Lua
cheia...sabe como é.
- Rose, tem café?
- Não. Você quer que mande comprar ?
Amarrei o laço da calça.
- Emergência de verdade ou conversa fiada?
- Ih, doutora. Acho que essa é braba mesmo.
Machado, o bombeiro, empurrava a maca pelo
corredor e acho que ele também não tinha tomado café. Gestação múltipla,
paciente diabética e hipertensa. Quer melhor que isso? Três bebês segundo a
própria mãe. Mandei fazer uma ultra e interná-la. Rose veio com a boa notícia:
- Doutora, não tem vaga na
enfermaria. Coloca ela aonde?
Olhei para Machado e ele foi logo
engrossando.
- Nem pensar doutora. Tenho que levar a
maca agora.
- Machado. O que você acha que eu devo
fazer? Colocar a – dei uma olhada rápida na ficha – Sueli no chão? Ou tirar o leito de uma paciente que já está internada para dar lugar pra Sueli?
- Isso não é problema meu. A maca vem
comigo.
Fui chegando perto do Machado. Continuei na voz mais suave que minhas cordas vocais puderam reproduzir.
Fui chegando perto do Machado. Continuei na voz mais suave que minhas cordas vocais puderam reproduzir.
– Você quer dar uma olhadinha na
enfermaria, Machado? Quem sabe você mesmo escolhe a paciente que vai perder
lugar. Porque a Sueli não pode levantar, certo? Você acha que eu posso
colocá-la sentada na cadeira plástica?
Machado cruzou os braços. Leia-se: defesa.
Machado cruzou os braços. Leia-se: defesa.
– Doutora, eu tenho outros chamados para
cobrir. Tenho que levar a maca.
Minha voz foi tomando uma entonação mais dramática.
Minha voz foi tomando uma entonação mais dramática.
– Isso. Depois os jornais e rádios vão cair
de pau em cima de nós, médicos, caso algo aconteça a nossa preciosa paciente.
Você sabe como a imprensa adora partos múltiplos. Ou quem sabe ela consegue uma
liminar judicial exigindo uma vaga? Aí a gente faz um sorteio entre as
pacientes e vê quem cede o leito.
– Eu levo a maca. – disse Machado, com voz
autoritária.
– Essa eu quero ver. – revidei.
E de repente éramos três mulheres, não
muito bem humoradas – lembrem-se, eu ainda estava sem café – olhando para ele.
Machado bateu as botas pesadas no chão, bufou, deu meia volta e saiu retumbando
pelas portas transparentes.
– Isso não vai ficar assim, doutora.
– Ah, não vai não. São só oito da manhã e o
dia promete. Isso eu tenho certeza! – baixo nível de cafeína me torma uma
pessoa cínica.
E assim Sueli foi internada, ainda na maca
dos bombeiros, no corredor da entrada da enfermaria. Eu voltei para a sala de
admissão pra atender uma fila de gestantes, rezando pra nenhuma delas precisar
ficar internada. Duvido que os bombeiros voltem aqui hoje.
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