Cap. 3 - Meu Reino por uma Reportagem
A terceira menina berrava sua primeira saudação
ao mundo, quando meu celular começou a tocar e o centro cirúrgico se encheu com
a melodia: “Delícia, delícia, assim você
me mata”. Isso mesmo minha gente. Eu
podia ouvir a gargalhada de Carmem, uma das pediatras, bem atrás de mim. Queria
explicar que isso era idéia do Rafa, meu filhote, que é também a criatura mais
insistente do mundo, mas não deu tempo. Alice, a enfermeira, atendeu e me avisou
com sua voz anasalada, totalmente comprometida pelo riso.
- Dra. Marina, é o Dr. Sérgio.
Eu não sabia se ria ou falava, enquanto puxava
a placenta caprichada.
-Pergunta se é urgente, por favor.
Sueli resmungou querendo ver as meninas.
- Calminha aí Sueli. Está tudo bem.
Virei e olhei para as pediatras. Carmem me levantou o polegar da mão direita. Ouvi Alice se despedir e desligar o
celular.
- Ele disse que é urgente, mas não é caso
de vida ou morte, não. É alguma coisa sobre uma história que acabou de
ouvir no rádio. Pediu pra você retornar assim que puder.
Drama. Sérgio é total dramático. Afinal de
contas, ele é cirurgião.
As pediatras se aproximaram de Sueli, trazendo as meninas já enroladas nos
cueiros, super gordinhas para sete meses. Carmem, comentou:
- Marina, Lembrei de você hoje.
- Por que? Vamos receber aumento?
Carmem riu. Na verdade, deveríamos chorar.
Enfim...
- Li uma reportagem falando que uma xícara
de café pela manhã, faz os músculos trabalharem como se você estivesse se exercitando.
- Deus existe. Eu sabia. Agora não preciso
mais me sentir culpada. Academia nunca mais!
As meninas foram para as incubadoras e a sala foi-se esvaziando. Ouvi a voz de Carmem, já na porta.
- Vê se não vai dançar depois que eu sair,
viu?
Além
de ouvir a piada ainda tinha aquela barriga escancarada para suturar. O Rafa vai ficar um mês de castigo.
Um bom tempo depois, consegui chegar no
quarto, engolir um biscoito de chocolate recheado e beber uma boa caneca de café. Fiz uma prece para a alma iluminada que tinha enchido a garrafa.
Lembrei de ligar para o Sérgio enquanto
trocava o roupão. Segurei o celular entre a orelha e o ombro. Coisa simples
para quem é multifuncional.
- Oi, amor. Tudo bem? O que foi?
- Comigo tudo bem, mas o que tá acontecendo aí? Tava passando no rádio a história de uma menina de quatorze anos ai no hospital. Parece que ela teve o bebê em pé, na recepção...o bebê bateu com
a cabeça no chão e morreu. O locutor estava histérico!
Suspiro. Leia-se: falta de paciência.
Suspiro. Leia-se: falta de paciência.
- Sérgio, meu amor. Você precisa escolher
melhor suas rádios.
- Estou falando sério, Marina...
- A única menina de quatorze anos que
atendemos hoje chegou com o feto natimorto. Fizemos o parto na maca, inclusive.
Também contaram que a garota estava grávida do pai dela? E que depois de arrancar a verdade da coitada, tivemos que
reportar pra a polícia contra a vontade da mãe dela?
Calcei meu lindo croc branco combinando com meu lindo roupão azul e saí do
quarto em direção à sala de admissão. Rose estava encostada na entrada da porta
conversando com a mulher da limpeza. Olhei para dentro da sala e sorri para os
lençóis trocados. Não duraria muito, mas o que é que dura nessa vida?
- Não. Ele só falava, ou melhor, gritava
que os médicos estão assassinando bebês na maternidade. E a mãe da garota
também foi entrevistada. Tinha que ouvir. Fiquei preocupado se a imprensa vai
aí perturbar vocês.
- Deixa eles virem. Faço questão de
levá-los para um tour pelo nosso reino. Quem sabe eles se interessam em perguntar porque temos
tão poucos médicos atendendo. Mas, acho que não teremos tanta sorte
Nos
despedimos. Fiquei decidindo se ficava uma fera ou se abstraía. E ninguém nem reclama que depois do parto fica sentada numa cadeira plástica por falta de leito. Me poupem. Bati no ombro de Rose.
- O Machado veio buscar a maca?
- Se veio! Tinha que ver a moral dele.
- Que pena. Poderíamos usá-la mais um
pouco. Passe maquiagem nesse rosto que hoje vamos ficar famosas.
Rose me olhou desconfiada e riu. Será que
não tenho nenhuma moral por aqui?
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