Cap. 5 - No Banco da Esperança


Conversando com Maria Angélica no banco da esperança, sexta-feira, véspera da véspera do Dia das Mães:

- Ih, doutora. Vai pra adoção sim. Posso ficar com esse menino não.

- Você tem certeza? Não quer esperar pela hora do parto, ver o bebê?

- De jeito nenhum. Não quero nem ver a cara dele, doutora. Posso não. Minha vida tá uma bagunça só.

É...zero esperança para o bebê. Olho aquele barrigão enorme, a mãe cheia de marcas pelo corpo, pressão alta.  Parabéns para a política de controle da natalidade no nosso país. Quanta alegria em ver essas mulheres, totalmente despreparadas, jorrando filhos por todos os poros, ano após ano. Maria Angélica já é figurinha conhecida aqui pela maternidade. Tem sete filhos. SETE! Gente, não cabe nem numa única mão. O oitavo, rejeitado. Poing! Segura aí assistente social.

Pensei logo no Rafa. Meu filhote querido e doente. Bom, pelo menos não é dengue. Ufa! Confesso que tive um baita medo. Tive que deixá-lo aos cuidados da Bisa novamente: “ Vó, dá o antibiótico às onze, tá? Só o antibiótico viu, Vó?” Sabe-se lá que outras receitas ela tem em mente.

- Maria Angélica, você não acha que tá na hora de ligar as trompas? Que tal?

- Tá louca doutora? Eu quero ter uma filha...e aí vou tentando né? Não sei que diacho é isso que só faço filho homem.

Simples assim pessoas. Maria Angélica quer uma filha, entendem? Por isso ela já tem sete filhos e vai colocar o próximo para adoção. Esse bebê que ainda nem viu a luz do mundo, já cometeu um grave erro: não é menina. Um pequeno detalhe genético. Com essa me levantei, passei a prancheta para Rose e voltei para a sala de admissão. Eu quero gritar com a Maria Angélica. Quero gritar muito alto com ela, mas não posso. E adiantaria? Quase voltei lá e mandei ela trocar de marido. Tenta outro querida. Quem sabe assim o próximo vem uma menina! Porque uma coisa é certa, queridos e queridas...Maria Angélica estará aqui de volta no ano que vem.

Rose colocou a cabeça pela porta enquanto eu pescava mais um prontuário.

- Doutora Marina, o chefe mandou lhe chamar lá em cima.

Hum, hum. Eu sei. Ainda estamos sem médico na equipe, o sistema de saúde está caótico, despencando, desmanchando, des...deixa pra lá. Dá pra mudar o disco? Dá pra eu tirar minhas férias acumuladas? Que férias? Pra que férias, Marina? Fala sério. Hoje a noite não quero nem saber. Cinema com o Sérgio, comédia de preferência. Afinal, pra que mudar de assunto, não é mesmo? 

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