Cap. 6 - A Passeata na Emergência
Por que eu tenho um coração tão bonzinho? Isso
que dá não saber negar nada a um amigo.
Fernando, chefe do plantão da
emergência e representante do sindicato foi convidado a participar da passeata
dos médicos. Ah, Marininha, quebra essa vai? — eu tentava, sem muito sucesso, pintar as unhas
da mão direita para ir à uma festa de casamento — A
passeata é super importante. Vamos todos de jaleco e nariz de palhaço. Parei um
instante tentando visualizar Fernando no alto dos seus quase dois metros de
altura vestido daquele jeito, e nem era carnaval. Ri. Borrei a unha, esmalte
vermelho, xinguei baixinho. Tá bom. Pode deixar que eu cubro seu plantão. Ele
voltaria às sete e eu ainda teria tempo de ir ao casório
São três da tarde, ainda não almocei, sala dos
médicos sem cafezinho, média de 600 atendimentos por dia na emergência. Só
euzinha já atendi 100. Gripe, virose, nariz escorrendo, palpitações, unhas
encravadas, febre (37), dor de cabeça e por aí vai. Coisas que uma dose de
dipirona resolveria fácil, fácil.
No meio de toda aquela gente, com certeza mais
saudáveis do que eu, uma velhinha esperava pacientemente sua vez.
— Olá Dona Rosabela, o que a senhora está
sentindo?
— Ah, minha filha, é um leve mal estar.
Meu olho clínico nunca me enganou, mesmo
afastada das emergência por tantos anos. O “leve mal estar” de Dona Rosabela revelou-se numa glicose de 460 e, na minha opinião, um provável princípio de
enfarte.
Meu celular toca, era o Fernando pra saber se
estava tudo bem. Uma barulheira muito grande quase não me deixou ouvi-lo. Era
alguma coisa sobre reportagem, palanque. Sei lá. Tá, tá bom. Fica tranquilo que
por aqui está tudo certo.
Quando desliguei o celular, ouvi um tumulto do
lado de fora. Provavelmente alguém querendo furar a fila sem
passar pelo setor de acolhimento e classificação de risco, pensei. Uma das enfermeiras
abriu a porta com uma cara assustada.
— Doutora, a senhora está cobrindo o plantão do
Dr. Fernando, não é?
— Isso mesmo.
— Tem um bando de repórteres aí fora querendo
saber se os médicos estão trabalhando ou fizeram greve para ir à passeata.
Vocês sabem que eu sou uma
pessoa calma, tranquila. Meu sangue, debilitado pela falta de comida, cafeína e
paciência (questão genética), ferveu nas minhas delicadas veias. Lembrei que
era sábado e na chefia não teria ninguém para me socorrer. Como Fernando era o
responsável, sobrou pra mim.
— Hum. Me faça um favor. Não.
Dois favores. Primeiro, leve dona
Rosabela para fazer um eletro, mande o laboratório colher os exames dela e
chame Dr Luís, o cardio. Tenho certeza
que ela está enfartando. Segundo, deixe entrar apenas um repórter. Só vou atender um.
Os outros se não quiserem sair, chame a segurança.
E assim, minutos depois, entrou a vítima que foi
logo se apresentando.
— Pois bem Matias. Quer dizer
que ao invés de vocês estarem cobrindo a passeata para informar ao público da
grave questão da saúde e da educação nesse país, você está aqui pra saber se os
médicos faltaram ao trabalho para ir à manifestação.
Sérgio teria se orgulhado do
meu auto-controle.
— Isso mesmo, Dra...
— Marina. Dra. Marina.
— É que as pessoas estão
reclamando que a emergência está lotada e...
Não aguentei. Dei uma
gargalhada igual à do Coringa. Matias ficou de boca aberta com a frase pela
metade.
— A emergência só está lotada
hoje?
— Bom, só recebemos denúncias
hoje.
Fiquei pensando naquela gente
toda do outro lado. Eles, que pensam que médico não pode sequer ir ao banheiro.
Comer, então! pra quê? Eles, que deveriam testemunhar nosso esforço para atender
mesmo em condições precárias, ligam para os jornais só porque ouviram falar da
passeta. Que nem querem saber que estamos lutando por eles também. Inclusive o Matias que, quem sabe, algum dia
poderia precisar de atendimento médico público. Qualquer um de nós pode precisar.
— Vamos fazer o seguinte,
Matias. Você vai passar as próximas duas horas comigo e vai ver se nós
estamos, ou não, fazendo os atendimentos. Ok?
Matias ficou todo feliz. Eu, mais ainda.
Durante quinze minutos, fiz
pequenos atendimentos. Depois,
fui chamada para uma tentativa de ressuscitação sem sucesso. Era dona Rosabela
que estava enfartando. Ela tinha sofrido uma parada cardíaca durante
a realização do eletrocardiograma. Quando anunciei a hora do óbito, olhei para
Matias que parecia que ia desmaiar. Ver a morte de perto, pela primeira vez, é
realmente assustador. Eu até poderia dispensá-lo, mas eu estava numa missão.
Aquele repórter ia ver o que era uma emergência de hospital.
Fomos para uma apendicectomia de urgência seguida de uma farta
drenagem de abscesso. Matias precisou correr até o banheiro para vomitar. Depois, as
infindáveis queixas básicas de dor-de-cabeça, coceira, olho lacrimejando.
Matias foi cansando, cansando. Último atendimento, homem baleado. Achei que o
corajoso repórter já tinha visto o suficiente.
Ainda nauseado, Matias (que deve ter saído da
faculdade ontem) agradeceu e foi resgatado pela equipe de reportagem que o
aguardava impaciente. A última vez que o vi, estava falando ao microfone:
— Como pude ver, a emergência está aberta e
funcionando com todos os plantonistas não sendo portanto confirmada a
denúncia de que os médicos estão em
greve.
Dei uma sonora gargalhada e
fechei a porta. Próximo paciente, por favor.
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