Cap. 7 - Mulher apaixonada é fogo!
A vida sempre pode nos surpreender,
não é?
Minha surpresa chegou com o nome de Jaci.
Ela entrou lá pelo meio da tarde, meio sem
jeito e trazendo um odor bizarro junto. Pensei, honestamente, que tinha
um bicho morto na bolsa preta que ela trazia apertada entre as mãos. Sei lá,
tem doido pra tudo. Rose me olhou e arregalou os olhos, que já são
meio esbugalhados. Jaci sentou-se na beirada da cadeira ainda apertando a
bolsa.
- E aí Jaci. Por que você veio na
emergência?
Ela pigarreou.
-Sabe o que é, doutora? É que eu acho que tô
grávida.
Olhei desconfiada pra ela. A bolsa me olhava, eu olhava a bolsa.
- Hum. Acha?
- É que minha regra tá muito estranha. Mês
passado veio normal e foi embora de repente. Até estranhei. Aí, esse mês era
pra ter vindo e só veio uns pingos. Nunca aconteceu isso não.
- E porque você não fez um teste de farmácia
ao invés de vir até aqui?
Se eu
não terminasse logo o atendimento era capaz da Rose desmaiar.
Jaci ficou ainda mais desconcertada e
corou.
- Sabe o que é doutora ... é o cheiro.
Pronto. Lá vinha a história. A bolsa me
olhava, eu olhava a bolsa.
Ela continuou:
- A senhora deve estar sentindo, né?
- Hum, hum.
- Pois, é. Meu marido não aguenta mais. Na verdade namorido, sabe como é, né doutora? Ontem ele falou que não vai mais pra cama comigo não. O cheiro vem lá de baixo, sabe doutora...da
minha...
Confesso que senti um certo alívio. Não era
nada na bolsa, era dentro da Jaci. Pobre marido, namorido, seja lá o que for. Mais aliviada, me levantei pra
pegar as luvas.
- Então tira a calcinha e deita na cama que
eu vou te examinar.
Rose tampando o nariz,
encostada na porta, já não conseguia disfarçar o desespero. Jaci deixou a bolsa
na cadeira e fez como eu tinha mandado. Comecei o exame e logo me deparei com
um objeto não identificado.
- Hum...segura aí Jaci.
Jaci deu um gemido.
- Sim, senhora.
Segundos depois tirei de dentro dela um
absorvente interno, ou que restara dele. O cheiro triplicou e pedi a Rose que
abrisse um pouco a porta. Com um resto de fôlego, consegui dizer:
- Jaci. Isso aqui é um absorvente.
- Que isso, doutora!
E aí ela corou mais ainda.
- Ai, meu Deus. Eu esqueci de tirar o OB!
Então foi isso...
Ela começou a rir. Joguei aquela coisa dentro da lixeira e
tirei as luvas. Me virei, curiosa.
- Mas você não falou que sua regra não
tinha vindo esse mês? – perguntei, ingênua.
- Ah, sim. É que esse deve tá aí desde o
mês passado.
Momento para meditação. Nem respirar fundo
eu podia.
- E você tendo relações todo esse tempo com
isso aí dentro?
- Sim senhora. Nem lembrava disso.
- E você não lembrou que tinha colocado e
que tinha que tirar?
Já se levantando da maca, Jaci era outra
mulher.
- Sabe que não... é que eu e o Betão,
sabe como é né doutora, começa um chamego daqui, um chamego dali, eu acabei esquecendo
que o bicho tava aí dentro e...mulher apaixonada é fogo, né doutora.
Feliz da vida, sem notar o espanto nos
olhos de Rose e minha boca aberta, ela se levantou, vestiu a calcinha e
saiu. Rose, imediatamente, pegou a lata de lixo e levou pra fora da sala.
É...mulher apaixonada é fogo...
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