Cap. 8 - Um instantinho só
Meio do plantão, madrugada, quarto dos
médicos. Tenho certeza que estava sonhando alguma coisa bem interessante quando
a enfermeira me acordou.
- Doutora Marina, chegou uma criança pra
você atender.
A névoa foi se dissipando. Fiquei na
dúvida se me agarrava aos resquícios do sonho ou acordava de vez. Fazia o quê?
Dez minutos que eu me deitara? Me apoiei no cotovelo e pisquei feito louca com
a luz que vinha de fora. Como era mesmo o nome da enfermeira...Sandra.
- Sandra, tô com cara de pediatra?
Duas coisas me estragam a finesse: falta de
café e sono.
- Eu sei doutora, mas só tem a senhora pra
atender, a menina tá sangrando...
Tudo bem. Só tem eu. Ainda bem que tem eu,
né? Uma obstetra que fez tantos partos hoje que perdeu a conta. Feriado
prolongado. Todos os bebês da redondeza resolveram comemorar. Coisa mais sem
graça nascer em feriado. Ninguém nunca vai querer ir na sua festinha e quem é
obrigado, vai reclamar porque não pode viajar etc.
Isso me fez lembrar que o Rafa, meu
filhote, nasceu em pleno feriado. Tirei a obstetra de um casamento em que ela
era nada mais, nada menos que a madrinha. Imagine só. Até hoje ela nunca veio a
nenhum aniversário do Rafa. Será que ela ficou chateada? Hum...
Bom, voltando, mandei entrar a paciente. Me
aparece uma mulher jovem, bonita, bem vestida, saltos altos com uma menina
pequena no colo. O vestidinho manchado de sangue. Peço a mãe que deite a menina
para ser examinada e ela vai logo contando.
- Doutora, ela caiu do beliche.
- Beliche? Quantos anos ela tem? Ela dorme na
cama de cima do beliche?
- Não, é da irmã dela. Ela tem quatro anos.
- Ah, sei. E como ela caiu?
A menina berrava e me chutava com todo
gosto. Perdi total interesse no tal do sonho. Curiosíssima pra saber o que
aconteceu com a menina. Falei com a voz mais doce que podia. Estava morrendo de pena daquela menina. Que coisa assustadora se machucar assim e vir para um hospital cheio de gente estranha. Me virei para a mãe.
- Como ela se chama?
- Mônica.
- Como ela se chama?
- Mônica.
- Mônica, eu preciso ver onde você
está machucada. Não vai doer nada, só vou olhar, tudo bem? Abre bem as perninhas
igual a bailarina fazendo borboleta. Vou
te ajudar, tá?
Coitadinha. É claro que ela não acreditou
nem um pouco em mim, até porque já devia estar doendo. Aí foi que ela encheu
bem aqueles jovens pulmões e berrou com toda a vontade. Pedi que Sandra e a mãe
- nesse momento mais pálida que o Gasparzinho - ajudassem a segurar. A mãe
continuou a história.
- Ela subiu no beliche e eu não vi. Nao sei
como ela caiu. Eu saí um instantinho. Juro. Quando voltei já tinha acontecido.
Calma Marina. Se você bater nessa moça você
vai presa.
- Sei. A senhora saiu um “instantinho” em
plena noite de feriado e justo nesse “instantinho” sua filha caiu do beliche e
se machucou. Que azar, hein? E quantos anos tem a irmã?
- Já é maiorzinha. Tem oito.
Maiorzinha. Oito anos. Não posso dizer que
ela estava mentindo, né? Oito é maior que quatro. Fala sério...
No exame notei que a criança tinha um corte
na vulva e que realmente sangrava bastante. Fiz pressão com gaze e pedi à
Sandra que segurasse.
- Olha, mãe. Vamos precisar dar uns
pontinhos aí. Vamos ter que interná-la. Que horas ela comeu pela última vez?
A mãe olhou para o teto como se tentasse se
lembrar.
- Acho que ela jantou umas onze da noite.
Excelente horário para uma criança de
quatro anos jantar. Com essa, me retirei para pedir o centro cirúrgico.
No corredor me preparei para enfrentar o
Luciano, anestesista, que tenho certeza, me odeia. Ou pelo menos assim ele me
faz pensar. Quando me viu, torceu o canto da boca. Eu falei, não falei?
- Oi, Luciano. Estamos com uma
menina com queda à cavaleiro pra suturar.
- Quando comeu a útima vez?
- Umas três horas e meia.
- Só se for caso de vida e morte. E de mais
a mais, não tem sala. Temos uma neuro, uma ortopedia, uma geral e seus amigos
pediram uma cesárea.
Dito isso, empurrou as portas e entrou.
Bom, é isso. A delicadeza em pessoa. Mas numa coisa ele estava certo. Anestesia com barriga cheia é realmente perigoso.
Voltei para a sala e vi que o sangramento
tinha diminuído muito. Dava pra esperar até as sete da manhã. A pequena Mônica estava
bem mais calma, mas eu ainda queria dar uns tapas na mãe dela. Meu único
conforto é que, até lá, meu plantão teria acabado e eu não ia encontrar o Dr.
Lucianochatopracaramba no centro cirúrgico.
Pronto, falei!
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