Cap. 9 - Era uma vez...
Fui colocar uma chaleira de água pra fazer
um café quando me lembrei do meu primeiro dia no pronto socorro.
Euzinha, acad do 2.o ano, me achando a médica, entrei na sala de atendimento
onde o cirurgião de tórax, Dr. Luiz Carlos já se encontrava.
— A doutora sabe dar pontos?
Como? Ponto tipo bainha de calça? Tipo bordado
que a minha avó insistia em me ensinar?
— Não, senhor.
— Muito bem. Vai aprender agora.
Pegou dois panos, agulha curva, fio,
porta-agulhas, fez a apresentação do material, do método (enquanto eu
tentava fazer minhas pernas pararem de tremer) e entregou-me tudo para
repetir o feito. Depois do terceiro ponto, ele deu três tapinhas nas minhas
costas e disse que eu seria uma ótima cirurgiã. Fiquei na dúvida se era um
elogio ou se ele tava curtindo com a minha cara.
Não deu tempo de pensar muito.
Nesse momento, entrava na sala um senhor, ou
melhor, tentava entrar. Mas pra cada dois passos pra frente, ele dava um pra
trás…o cheiro da cachaça humilhando o odor do éter. Da testa até perder-se no
couro cabeludo, um corte de mais ou menos 10 centímetros me olhava
assustadoramente. Sangue escorria pelo rosto encharcando a camiseta. Conseguimos,
com muito custo, deitá-lo na maca. O Dr. Luis Carlos me olhou, sorrindo,
enquanto fazia o diagnóstico de ausência de fratura craniana com os dedos
enluvados. Retirou a mão do ferimento, tirou as luvas, jogou na lixeira e me
disse:
— Raspe a peruca no entorno, luva,
lave, love, campo. É todo seu.
E ... foi-se embora da sala! Ficamos eu e o
outro acad, do 2.o ano. O homem deu um grito:
— Eu matxo aquela
dischgrachada!
Desesperado, tentava arrancar o campo cirúrgico
que nós dois tentávamos posicionar.Tentando
respirar com toda aquela fedentina de cachaça bem na direção de minhas lindas
narinas, eu disse com uma voz bem calma:
— Por favor, Seu Zé (era assim que ele
dizia chamar-se), fique quietinho pra não infeccionar seu ferimento.
Ah, eu era tão paciente…
Ele espantava minhas mãos como se fossem moscas.
O meu companheiro de sofrimento estava parado no canto. Dei-lhe meu olhar
fulminante. Será que dava pra me dar uma mãozinha?
— Eu matxo aquela
dischgrachada. Só porque eu tarra meio 'bebo', a disgrachada me achertou com a
gradje du fugão. Na covardjia, Dotôra, quâneu tarra durmino.
Uau! Tentei me concentrar na limpeza do
ferimento, mas só conseguia pensar na grade do fogão. Acordar assim não deve ser muito legal. O acad
reprimiu uma risada nervosa. Eu, que não posso ver ninguém rir, tive que
apertar os lábios.
— Eu mato ela, dischgrachada … Mariaaaa ... eu matuuuuu!!!
— Ô, Seu Zé, deixa esse pano aí pra não
infeccionar. Vou ter que dar uns pontinhos, viu?
E ele continuava tentando arrancar o campo
da frente dos olhos empapuçados de tanta porrada. Finalmente, o acad conseguiu
segurar ele justo quando Dr. Luis Carlos entrou. Eu já ia me sentindo aliviada
com o reforço bem vindo, quando ele começou a me explicar o
que era sutura por planos cirúrgicos e necessidade de fio de cat-gut lá dentro
da ferida...na tal gálea aponeurótica. Carimbou novamente o meu
Certificado e mais uma vez foi-se da sala.
Era eu e Seu Zé. Seu Zé e eu.
A partir desse momento era um ponto e choro, um
ponto e grito, um ponto e choro, um
ponto e grito. Até que, meio caminho andado, a porta se abre e uma doce voz
pergunta:
— É aqui que tá o Zé?
O paciente-impaciente parou imediatamente de
gritar, arrancou o campo cirúrgico e levantou-se da maca com a força de Sansão.
— Maria, meu amôzinho!! Minha flô de
laranjeira!
Era poeta o bebum…
E enquanto eu e o companheiro de luta
acompanhávamos a cena de amor, digna de Shakespeare, eles se abraçaram e
beijaram banhados no sangue que voltara a correr sem dó nem piedade.
Fomos testemunhas daquele pacto de amor e sangue.
Não houve, em nenhum momento, pedido de perdão. Não. O amor foi rapidamente reconstruído, antes
mesmo do fim da sutura. A culpa foi da grade do fogão.
Passou o tempo, não virei cirurgiã, mas casei
com um. Scarface deve estar se balançando numa cadeira de balanço, os cabelos
brancos cobrindo uma cicatriz que só existiu na carne, nunca na alma. Isso, se
a cirrose não o levou para o lado de lá.
Era uma vez, uma grade de fogão...
----Agradeço a participação do Dr. Lúcio Bulhões
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