Cap. 10 - Quem precisa de cinema?
A situação continua caótica. Sem chance de
conseguirmos obstetras pra completar os plantões e o hospital praticamente
caindo aos pedaços, parece que o fim do mundo vai chegar antes do dia 21 de
dezembro.
Estava matutando nisso, meio da noite de
plantão, calor sufocante e sala de espera lotada, quando uma menina entrou na
sala de atendimento. Bem, qualquer um diria que ela era apenas uma menina, não
fosse pela enorme barriga que arrastava com seu corpinho franzino.
Rose apontou a maca e pediu que ela
retirasse a calcinha pra ser examinada. A menina era só gemidos. Olhei a ficha
e verifiquei nome e idade. Carla Francine, quatorze anos. Aff! Acendeu-se a luz
vermelha da indignação. A menina gemeu.
– Ai, doutora...ai....
Coloquei a ficha na mesa e peguei um par de
luvas.
– O que houve Carla? O que você está
sentindo?
De repente, alguém do lado de fora deu um
chute na porta. Eu e Rose nos olhamos e, tenho certeza, pensamos juntas:
começou! Fingimos não ouvir. Carla Francine olhou assustada pra porta e entre
gemidos, reclamou:
– Muita dor, doutora. Muita dor.
– Sei. Vamos dar uma olhada pra ver como
está o bebê. – respondi enquanto apalpava
a reluzente barriga.
– Ai doutora, to sofrendo muito...
É. Carla Francine estava chegando a
conclusão, que gravidez não é tão
legal assim como suas amigas devem ter lhe dito. Imagine só quando nascer o
bebê e ela descobrir que não é igual a uma boneca? Quem é que faz um filho numa
menina como essa? Fala sério...
Terminei o exame constatando que Carla
Francine e seu bebê estavam com saúde nota 10. Aconselhei-a a fazer repouso e tentar
se acalmar. Deixei Rose tirando a pressão dela, enquanto fui até a outra sala
atender a próxima paciente. Minha barriga reclamou de fome. Olhei o relógio,
uma hora da manhã.
Na outra sala, me esperava uma moça
bonitona, forte, parruda, final de gestação e cara de choro. Kelly, dezenove
anos, esperando o quinto filho. QUINTO FILHO! Queixava-se de enjôo, dor e as
mazelas comuns a todas as gestantes. Será que tendo passado por isso outras
quatro vezes, ainda não aprendeu que esses incômodos são normais? Mas que ter cinco filhos com apenas dezenove primaveras, não é normal!? Imagine se toda grávida que sente enjôo
resolver vir pra a emergência de um hospital público...ai, ai.
Por outro lado, se eu tivesse dezenove anos
e esperando o quinto filho acho que ia sentir tudo isso e mais alguns sintomas psiquiátricos.
Tinha colocado as luvas e começado o exame quando a porta estremeceu com vários chutes violentos. Meu sangue escalou por
minhas delicadas veias, e as pernas começaram a formigar. Tirei as luvas e abri a porta, com olhos fulminantes contrastando com uma voz bem
calma (leia-se: perigo, perigo!).
– Do que se trata? – perguntei.
Cena de filme de comédia dramática. Um
rapaz segurando uma mulher grávida no colo, desespero total no rosto vermelho.
– Minha mulher desmaiou em casa!
A mulher do desesperado de plantão,
descalça, vestia um baby doll preto, transparente, cheio de frufrus e
pompons e uma calcinha fio dental, também preta, claro!
– Senhor, as duas salas estão ocupadas. Vou
providenciar uma maca...
Não consegui terminar a frase. O rosto dele
ficou ainda mais vermelho. Cuspindo saliva e palavrões dos mais
variados, gritou:
– Vai atender ela agora!
Ainda submersa na mais perfeita calma,
perguntei:
– O senhor quer colocá-la em cima dessa
paciente, ou daquela ali. – apontei para Carla Francine sentada na maca, olhos
esbugalhados.
Vendo o rosto alucinado do homem, a pobre
menina levantou-se e saiu correndo pra fora da sala, com o aparelho de pressão
pendurado no braço. Rose correu atrás dela. Aquele era nosso único aparelho de
pressão...
O senhor “calmo e educado”, deitou sua
senhora na maca forrada com um saco de lixo branco que fazia as vezes de
lençol, e disparou porta afora.
A paciente “acordou” imediatamente. Mal
sabia ela que o único que enganou com aquele desmaio fajuto, tinha sido seu
doce Romeu. Mas, exercendo minhas obrigações fiz as perguntas rotineiras e
descobri o motivo do desmaio. Ela tinha discutido com o marido por causa da
sogra... mas agora estava se sentindo ótima!
Ainda bem que aprendi uma respiração ótima, muito calmante, na aula de Yoga.
Nada mais a fazer, dispensei a paciente
enquanto Rose entrava na sala com o aparelho de pressão nas mãos. A moça desceu da maca e me perguntou, colocando a mão na cintura e
balançando os cachos do cabelo escuro e
farto, enquanto apontava para os pés descalços:
– Doutora, como é que eu vou sair assim?
Gente, ela estava preocupada em sair
descalça...mas eu não hesitei na resposta, que já estava na ponta da língua.
– Pede pro teu marido te colocar no colo e
levar, como te trouxe!
A moçoila, furiosa, arremessando cachos
pelo ar, levantou o nariz e saiu intempestiva pela porta. Eu não podia perder
essa por nada. Assisti enquanto ela desfilava pela recepção envolta em frufus e
pompons, barriga e traseiro de fora, enquanto os homens quase caíam das
cadeiras e as mulheres furiosas lhes cutucavam as costelas e davam cascudos.
Quem precisa de cinema?
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