Cap. 11- Um dia pra lá de especial
Mais um dia de verão escaldante. Um pouco
antes das sete da manhã, início de mais um plantão. Logo na chegada uma ótima
notícia.
- Dra. Marina, bom dia! Olha, o ar
condicionado da sala de atendimento pifou...
Vai ser um dia longo, e quente.
Nada mais a fazer além de suspirar e trocar
de roupa no quarto cada vez mais depauperado e mofado. Mas, veja que nem tudo é
tristeza: tem café fresco na garrafa. O cheiro inunda o ambiente, tomo um gole
delicioso e me preparo para abocanhar um pãozinho com requeijão...light. É na primeira mordida que Rose aparece na
porta com cara de urgência.
– Doutora, chegou uma moça desmaiada.
Respondi de boca cheia mesmo. Engoli mais
um gole de café – ah, meu café sagrado - e fui para a sala de atendimento. A
sala parecia um pequeno forno aberto. Não quis imaginar como estaria à tarde.
A moça deitada na maca parecia uma boneca
de papel marché branca. Essa estava desmaiada mesmo, e não era só isso. Tinha
um grande sangramento. Em volta, duas mulheres choravam como as boas carpideiras
de antigamente. Pedi delicadamente que saíssem para que eu pudesse examinar a
Priscila. Esse era o nome que estava na ficha.
Priscila, com vinte anos, espera o
primeiro filho. Esperava, melhor dizendo.
Era um aborto clássico, sem a menor chance de erro. Voltando do desmaio, ela
foi logo perguntando o que havia acontecido. Tem coisa que não dá pra enfeitar
então fui bem franca.
– Priscila, infelizmente você perdeu o
bebê. Vamos interná-la para fazer a curetagem...
- Não doutora! Por Deus!! Não pode me
internar, tenho que ir embora!!
E foi assim mesmo com todos esses pontos de
exclamação. Com certeza fiz cara de quem não estava entendendo nada. Ela não
parecia preocupada com o aborto, e sim em não ficar internada. Tudo bem que os
hospitais não são nada acolhedores, mas assim também já era demais.
- Chame minha mãe, ela vai lhe explicar.
Tenho que sair daqui agora!!
E Priscila ficou assim, totalmente fora de
si. A mãe entrou junto com a irmã da paciente. Contei a história com calma
e quando disse que ela ficaria internada o desespero fez eco.
– Valha-me Deus, doutora. Priscila não pode
ficar internada!
– E por que não?
Será que era alguma religião?
– Porque ela casa hoje, de véu e grinalda.
A festa tá pronta, vestido, doces, bolo, fotógrafo, convidados. Nem pensar, ela
tem que ir fazer o cabelo, maquiagem. Não dá doutora.
Ai meus sais.
– Olha dona...
– Arlete. Meu nome é Arlete.
– Dona Arlete, a sua filha já está
expelindo o feto. Ela tem que se internar.
E aí foi a torre de babel. Todas falavam ao
mesmo tempo. Priscila chorava cachoeiras de lágrimas. Rose, a seu lado, lhe dava tapinhas de consolo na mão pálida. Manicure. Ela também
tinha que fazer as unhas. E as daminhas? Ela queria supervisionar a decoração. Fiquei sem ação por um minuto talvez. Depois de passar por uma gama de
emoções, tive pena de Priscila. Ninguém brinque com o dia do casamento de uma
mulher. Elas começam a planejá-lo aos dois anos de idade.
Tentei convencê-la a vir casar aqui no plantão. Ia ser tão legal. Mas não deu certo.
Por fim, Priscila expeliu feto e placenta
às oito da manhã. Um ultrassom revelou que não havia necessidade de curetagem.
Às cinco da tarde liberei a noiva, com a condição dela voltar para passar a lua
de mel conosco. E foi isso mesmo que aconteceu. Ela voltou, inconformada, aliança no dedo, toda
maquiada e com roupa de festa. O vestido de noiva já fora guardado. Chegou com
marido e alguns convidados. Mulherada toda arrumada, saltos altos e muito
brilho. Depois de mais choro, abraços e beijos, os recém casados se separaram.
E eu nem lembrei de gravar pra colocar no youtube.
E eu nem lembrei de gravar pra colocar no youtube.
Comentários
Postar um comentário