Cap. 12 - O nome


Eu tinha acabado de desligar o celular quando Analice, a enfermeira, veio me avisar que estava tudo pronto para o parto.

Posso dizer que estava bastante aborrecida com a ligação. Era o Sérgio me contando sobre a situação do Adão. Não é o marido da Eva, não. Adão o médico que se tornou o inimigo número um do Brasil.

A parturiente já era figurinha conhecida no hospital. Dilana, que todos conheciam como Lady Di, tinha 25 anos e estava dando à luz ao sexto filho. Vai gostar de fazer filho assim...eu mal dou conta de um.

Calcei minhas luvas e sentei-me no banquinho à frente dela. O parto já estava bastante adiantado, a cabeça do bebê coroando.

– Menino ou menina Lady Di? ­– Perguntei pra descontrair.

Depois de um longo gemido ela respondeu.

– É menino doutora. Mais um. Com esse é o quinto.

– Boa sorte! – contribuiu a Dra. Carminha, pediatra.

– Carminha, você tá sabendo da história do Adão?

Carminha chegou perto para observar a chegada do rebento.

– Soube por alto. Que maluquice, né?

Lady Di soltou um berro estridente. Se fosse cantora de ópera teria quebrado os vidros das janelas. Levantei do banco e a encarei entre as pernas abertas.

– Lady, pega leve aí. Preciso dos meus ouvidos, ok?

Continuei...

­– O Sérgio tava me contando agora mesmo, no celular, sobre a história. Eles trabalham no mesmo hospital. O pobre coitado está sendo crucificado pela mídia.

– Mas o que aconteceu, realmente?

– Bom, ele é neurologista. Na última sexta faltou ao plantão e uma menina, que tinha sido baleada na cabeça, bala perdida, morreu porque não tinha médico para operá-la.

Outro berro de lady Di. Estava chegando a hora boa.

– Vamos lá Lady Di. Você já sabe como é. Força aí pra esse menino sair logo...e para de gritar pelo amor de Deus.

– Ih, a mídia adora essas histórias. E não tinha outro neuro pra substituir ele? – perguntou a inocente Carminha.

– Não queridinha. Deveria, pelas normas do sindicato.

A cabeça saiu e um bebê de cara amassada sentiu no rosto o ar do nosso mundo pela primeira vez. Agora ia ser mais rápido. Me preparei para o grand finale. Carminha já estava a postos. Assim que o pequeno saísse iria para suas mãos.

– Que loucura. Mas o cara tem direito de faltar. Vai saber se ele estava com diarréia, dengue, filho doente, foi assaltado, sequestrado...sei lá. Pode acontecer com qualquer um.

Agora a respiração de Lady Di estava na fase do desespero. Ela se contorcia e berrava a plenos pulmões. Num jato, o bebê foi expulso do Éden. Seu choro explosivo encheu a sala de parto. Agora meu amiguinho, é aqui fora. É pra valer.

– Bem vindo ao mundo, bebê! – falei emocionada.

Já perdi as contas da quantidade de partos que fiz, mas todas, todas as vezes me emociono. O primeiro choro, o primeiro som que esse ser humano produziu. O milagre do nascimento encanta qualquer um.

Cortei o cordão umbilical. Carminha estendeu as mãos cobertas com um lençol cirúrgico. Pegou o pacotinho que berrava inconsolável e levou para os cuidados iniciais e o teste de APGAR.

– Seu bebê é um meninão Lady Di. Agora chega, né? Ou vai querer formar um time de futebol?

Lady Di deu uma risada. Comecei o trabalho de costureira.

– Voltando ao assunto, o Sérgio disse que tá a maior confusão por lá. A imprensa enchendo o saco pra saber porque o Adão faltou. Querem que ele responda pela morte da menina. Pode isso? O hospital tem que ter um plano B. Se um médico falta tem que colocar outro no lugar. Aliás, no caso de neuro, tem que ter dois em todos os plantões.

– Eu tinha ouvido falar nisso. Mas duvido que algum hospital respeite essa regra.

– Mas imagine você se no meio de uma craniotomia, o neuro tem um AVC? Como é que fica? Tem que ter outro dentro da sala pra continuar a cirurgia. Pelo amor de Santo Augustinho, gente. A pessoa está lá com a cabeça escancarada...como é que faz?

O bebê de Lady Di ainda reclamava enquanto Carminha aspirava suas narinas.

– Pode crer. Que loucura isso gente. No fim, o Adão é a bola da vez?

– Isso aí. Médico não pode faltar. Qualquer trabalhador no mundo pode, menos o médico. Entendeu?

– Fala sério. A imprensa tinha que arrumar um bode expiatório. E ninguém fala da violência na cidade. Essa menina foi atingida por uma bala perdida. Fala sério. A mídia tá caladinha. Tenho dois parentes que foram assaltados nas últimas semanas. Meu sobrinho além de assaltado foi espancado. Minha tia, uma senhora de idade, parada no sinal vermelho, foi arrancada do carro pelos assaltantes. Ninguém fala. Parece que a cidade está em paz, controlada.

Carminha terminou os testes, pesou, mediu o rapazinho. Menino saudável e forte, anunciou. Enrolou-o no cueiro e veio caminhando em direção à mãe.

– É isso. Pra desviar a atenção do absurdo da bala perdida, eles crucificam o Adão. – respondi.

– E porque a SAMU não levou a menina pra um hospital que tivesse médico para recebê-la?

– Amiga, essa pergunta vale um milhão de dólares. Responda quem puder.

Carminha deitou o bebê no berço ao lado da mãe. Lady Di parecia estar cochilando enquanto eu continuava o minucioso trabalho de costurá-la. Continuei:

– Se o sistema funcionasse como deve, Adão poderia ter até se engasgado com um pedaço de maçã e morrido que ninguém ia se incomodar. Quem mandou se chamar de Adão? Agora leva a culpa!

Carminha caiu na gargalhada.

– Marina, você é impagável!

Tive que rir também.

– Lady Di, como vai ser o nome do bebê? – lembrei de perguntar.

– Ah, doutora. Vai ser Gabriel.

– Muito bem. Nome de anjo. Menina esperta!

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