Cap. 13 - A Agenda
Já vi muita
coisa absurda nesse mundo. Mas sempre tem espaço para mais um, pode ter
certeza.
Euzinha
linda e perfumada, maquiada, pretinho básico, justinho, cheguei na festa da
Marcinha, minha prima. Amigos reunidos, animação, pista de dança, DJ, bebida liberada.
O pa-ra-í-so. O melhor de tudo, noite de folga com meu amado maridinho, Sérgio.
Bisa ficou tomando conta do Rafa. Saímos de casa deixando os dois no sofá
assistindo novela e comendo pipoca. Umas graças.
Conversa
vai, conversa vem, depois da primeira piña colada, eu queria mesmo era dançar
com meu cirurgião favorito. Sérgio estava inspiradíssimo e seguindo a regra
inviolável que estabeleci para a noite: nada de conversa de médico.
Mas o
relógio ainda não tinha dado duas voltas, quando Marcinha me puxou pelo braço,
justo quando eu estava me preparando pra abocanhar a cereja e o abacaxi do meu drink.
- Marina,
corre que a Lina tá parindo!
Nananinanana.
Isso é pegadinha. Brincadeirinha de mau gosto. Mas não era não. No sofá do lounge, rodeada por curiosos, jazia a Angelina,
minha outra prima, se contorcendo. Tive que driblar uma poça d’água que todos,
sabiamente, evitavam. A bolsa rompera e pela cara da moça, era um daqueles
partos the flash.
Corre,
entra no carro, Angelina engrenou a respiração cachorrinho. Calma Lina, ainda
vai demorar, guarda a respiração pra daqui a pouco. Ela me olhou de forma
fuzilante, provavelmente com razão. Sérgio, que estava no carona, se virou pra
trás e riu. Ele fica “super engraçadinho" quando bebe.
Segurei a
mão da Lina, a mesma que costumava destruir meus bolinhos de barro no quintal
da vovó, e pedi que ela apertasse quando viessem as contrações. Me distraí ouvindo
Sérgio conversar com a Dra. Gabriela, obstetra da Angelina, quando percebi que
ela apertava minha mão com uma frequência maior que a esperada.
– Lina,
docinho, aperta a minha mão só quando vier a contração, ok? Pra eu ter uma
idéia de quanto tempo...
– Eu estou
fazendo EXATAMENTE isso!
É...pavio
curto corre na família. Com isso constatei que o pimpolho estava mesmo com
muita pressa e o tempo era curto. Davizinho decidira chegar quinze dias antes.
Vai ver não queria ser virgem...
Enfim,
chegamos na maternidade particular, toda arrumadinha com plantas na recepção e
duas mocinhas de terninho, cabelos lustrosamente presos num coque, nem um fio
de cabelo perdido...pasmem. Tomei a
frente enquanto Sérgio e o marido desesperado apoiavam os braços de Lina.
– Você pode
me conseguir uma cadeira de rodas. Minha prima está em estágio avançado...
– Senhora,
sua prima está agendada?
Odeio
quando me interrompem. Fico tão chateada ...
Sorri, –
essas meninas não podem ser contrariadas – e coloquei a mão em cima da mesa
imaculadamente arrumada.
– Agendada?
Como pra fazer exame, é isso? Acho que você não entendeu. Ela entrou em
trabalho de parto. Sabe como são os bebês. Eles não avisam...
A mocinha
me olhou calmamente e, enquanto Lina sentava-se gemendo numa das cadeiras da
recepção, me falou como se eu tivesse cinco anos de idade.
– Senhora,
só aceitamos gestantes com partos devidamente agendados por suas obstetras.
Sangue
ferve mais fácil quando regado com piñas coladas. Fica aí o aviso.
– Sei, sei.
E o que acontece quando o bebê não te avisa, com a devida antecedência, dia e
hora que virá a esse belo mundo em que vivemos, e resolve chegar, assim, querendo
fazer uma surpresa pra todos?
–Marina!!
Não vai dar pra segurar. Ele vai nascer. Tô avisando!
Olhei pra
trás e vi Lina escorregando os quadris para fora da cadeira. Fui até ela,
levantei o vestido e lá estava, um pequeno vislumbre do topo da cabeça do Davi.
Era bem cabeludo. Olhei rapidamente para o Sérgio que entendeu a mensagem. Ele
levantou-se e foi até a recepcionista.
–
Senhorita, chame o gerente, encarregado, seja lá qual o título que tem a pessoa
responsável por esse circo aqui.
Sérgio fala
alto, gesticula. É teatral o meu marido. Boa coisa porque se a situação da categoria
médica não melhorar, ele pode optar pela profissão dos palcos.
– Calma
amor, deixa que eu resolvo. Ajuda lá o pai da criança que parece que vai
desmaiar a qualquer instante.
Nesse
momento chegaram meus tios, pais de Angelina. Acenei rapidamente e virei-me
novamente para a mocinha admirando sua calma. Afinal, não era ela que estava
parindo.
– Só pra eu
entender. Nessa maternidade, uma das únicas que aceita
o plano de saúde da minha prima, só aceita-se cesarianas?
A mocinha
respirou aliviada.
– Isso
mesmo senhora. É isso que estou tentando dizer.
Eu sorri
novamente e só quem me conhece bem saberia reconhecer uma leve contração vocal
quando respondi.
– Ah, então
tá explicado. Tem que agendar a cesárea, aí chega aqui tranquila, horário
marcado, ninguém se desespera, a doutora pode ficar na festinha e ninguém se
estressa. A gente escolhe a melhor data, o mesmo dia do bivô, ou do Einstein,
pode até mandar fazer o mapa astral com antecedência. Entendi. Mas você não respondeu o que perguntei. O que fazemos com o Davizinho que não sabia dessa
regrinha básica da maternidade. Ele não quer esperar, entende? Eu até tentaria
ir lá conversar com ele, mas acho que não vai funcionar. Eu conheço bem os
bebês. Eles são tão imprevisíveis.
–
Infelizmente não poderemos ajudá-la. A senhora terá que levá-la a um outro...
Aí me vinguei e não deixei que ela terminasse a frase.
– Ah, você
vai ajudar, sim! Você vai fazer a ficha da Angelina, chamar o carinha com a cadeira de
rodas, e nós vamos ocupar uma das suitezinhas bonitinhas que vocês tem aí e o
Davizinho vai nascer em paz, sem hora marcada, sem agendamento, sem nada.
Nesse
momento chegou a Dra. Catarina, que vinha correndo, já que o
pai da criança a estava mantendo informada, pelo celular.
– Já
conseguiu o quarto Marina? Vim o mais rápido possível.
– Catarina,
tudo bem? Vai dar uma olhadinha nela porque já vi que Davizinho é cabeludo. O
quarto vai sair bem rápido não se preocupe. Sérgio, meu amor, vem aqui por
favor.
A
recepcionista continuou.
– Senhora,
já lhe disse que é impossível.
Ela olhou,
desconfortável, para a cena que se desenrolava atrás de mim. Angelina tinha
passado do cachorrinho para o leão. Dra. Catarina tentava acalmá-la e Sérgio
tinha chegado perto de mim. A voz de barítono estrondou pela recepção.
– Sabe o
que é impossível? Crescer cabelo em casca de ovo. Arrancar dente de galinha.
Essas coisas são impossíveis. Você tem exatamente dez segundos para começar a
fazer a ficha da Angelina. No fim dos dez segundos eu vou ligar primeiro para a
polícia, depois para um amigo meu, jornalista, que adora escândalos.
Principalmente quando envolve mulheres barrigudas e recém nascidos.
Esse era
meu herói. Meu cirurgião dramático. Engrenei na dele e aumentando, só de leve,
a minha voz, continuei:
– Enquanto
eles não chegam, vou esticar minha echarpe no chão e faremos o parto da Angelina
aqui na recepção. Tudo será devidamente filmado pela minha câmera do celular.
Vai ser um show e tanto.
A moça
finalmente mostrou que tinha sangue humano e tremeu a voz, “um momento, por
favor”. Pegou o telefone e discou para alguém. Falou alguma coisa bem rápida,
balançou a cabeça em sinal afirmativo, respondeu algo que lhe tinham
perguntado. Ouvi as palavras “polícia” e “alterados”. Isso mesmo
garota...resume aí. Ela colocou, na base, o telefone sem fio e me encarou.
– Senhora,
recebi autorização para abrir uma exceção para sua prima. Preciso dos
documentos dela e a carteirinha do plano.
Pela
comoção no setor das cadeiras eu sabia que não tinha mais muito tempo a perder.
– Ah,
quanta gentileza. Mas antes, você vai pegar de novo esse telefone aí e chamar o
rapazinho da cadeira de rodas pra levar a Lina pro quarto.
–
Senhora...
– Dez,
nove...
E assim ela fez. Menina obediente.
Davizinho nasceu, forte e saudável, podendo escolher a hora que lhe era
conveniente. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. A recepcionista deve
estar até agora tentando resolver o problema da agenda...
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