Cap 16 - Passeata pra que te quero
Rafa pegou
uma virose daquelas e chego ao plantão mais morta que viva. Como foi quase impossível dormir, fiquei
assistindo, pela televisão, as manifestações que abalaram o país. Isso até me
deu ânimo, sabia? Gostei de ver os cartazes reclamando das condições da saúde
pública, entre tantas outras coisas. Será que vai dar jeito?
Na
maternidade, nada mudou, além do assunto que agora é o mesmo em todos os
lugares. A recepção cheia traz a certeza de que teremos que matar leões, cobras
e jacarés para atender as pacientes. Mas, isso não é mais novidade.
Na sala de
atendimento, meu R1 já estava lendo o próximo prontuário. Levantou a cabeça
quando me viu e pelos olhos dele eu já sabia que a história que vinha era boa.
Matheus tem cara de bebê. Às vezes, até eu tenho dificuldades de acreditar que
ele é médico.
– Bom dia,
Dra. Marina.
Olhei para
ele e sorri.
– Fala,
Matheus. Que bicho tá te roendo?
Ele sorriu,
levantou da cadeira pra me dar o lugar e continuou.
– Sabe
aquele parto Discovery selvagem da semana passada?
Um aparte
aqui para esclarecer a fala do rapaz. Parto Discovery selvagem é o código nas maternidades para descrever uma mulher em trabalho de parto, absolutamente
incontrolável, geralmente seguido por um parto onde muitas mãos se fazem
necessárias para segurar a parturiente. Me recordei claramente.
– Olha o respeito, menino. O que passou?
Tentei falar sério, mas meu sorriso me
denunciou. Ele é engraçado.
– Acertamos em cheio. A paciente é
viciada em crack. Tá dando o maior trabalhão lá na enfermaria. Não cuida do
bebê, não quer amamentar.
Pensei imediatamente nos belos discursos
que filho tem que ser criado pelos pais ou pela família. O meu dia a dia já se
encarregou de acabar com essa utopia faz tempo. E o serviço social? O serviço social sempre
acha que é possível " resgatar a cidadania " e que todas as mães que
querem dar os filhos, devem ser convencidas a ficar com eles. Que toda família
é amorosa e deseja criar mais uma criança rejeitada pela mãe. Sempre acho que
estas crianças vão parar nas adoções irregulares ou nas ruas. Enfim, deixei o
problema para quem de direito, com um protesto:
– Porque não chamaram o conselho tutelar ou o juizado de menores? é uma criança em situação de risco!
Respirei fundo. Assunto de bebê maltratado sempre me tira dos saltos.
– Vamos trabalhar que é o melhor que fazemos.
– Pode crer, doutora.
Respirei fundo. Assunto de bebê maltratado sempre me tira dos saltos.
– Vamos trabalhar que é o melhor que fazemos.
– Pode crer, doutora.
Rose terminava de arrumar a mesa de exames e Matheus tomou o lugar ao lado dela. Abri a porta e
chamei em voz alta:
– Emília!
Sempre
penso no Sítio do Pica Pau Amarelo quando ouço esse nome. Mas não foi a boneca
de pano que apareceu não. Foi uma senhorinha de uns 70 anos. Ela foi entrando
toda faceira e eu me perguntando o que ela fazia numa maternidade. Deus me
proteja que ela esteja grávida! Matheus e Rose olhavam a mulher como se o Papa estivesse
entrando na sala.
– Bom
dia, Dona Emília. O que a traz aqui, na emergência da maternidade?
Ela foi
logo sentando na mesa e olhou simpática para o Matheus.
– Meu
Deus. Você tem idade pra ser médico, meu filho?
Tenho
certeza absoluta, embora ele não tenha emitido nenhum som, que ele estava
pensando: “E a senhora tem idade pra estar grávida?". Então fui euzinha que
transformou os pensamentos em voz.
– Então
Dona Emília, não me diga que a senhora está esperando um bebê?
Ela deu
uma gargalhada sonora e tivemos que rir com ela. Ela era uma coisinha pra lá de
simpática.
– Não,
doutora! É que meu útero tá caindo.
Ah,
tá...que alívio. Ufa! Mais ou menos, na verdade...
– Mas,
Dona Emília. Isso aqui é uma maternidade. A senhora tem que ir pro setor de
ginecologia. Não vamos poder ajudá-la.
– Ah,
doutora. A senhora tem que me ajudar. Já fui a vários hospitais sem conseguir
senha na ginecologia, e isso tá me doendo muito. A senhora não faz ideia, até
pra sentar...
Ela foi
deitando e tirando a peça íntima que lhe cobria o incômodo. Cortei a explicação
que nascia dos lábios da Emília, e antes que ela abrisse a canastrinha, falei:
– Tudo
bem, Dona Emília. Vou dar uma olhada.
E dito e
feito, o órgão que deveria estar guardadinho lá dentro, resolvera ver o que
estava se passando no mundo exterior. Tive tanta pena dela! Imagine essa
senhora andando pra lá e pra cá, desse jeito, tentando ser atendida. Aproveitei
para dar uma aula ao Matheus, já que ali, na maternidade, as chances dele ver
um prolapso uterino são raras, quase impossíveis.
Pedi a
ela que se vestisse e levantasse. Tirei as luvas e joguei na lixeira.
– Olha,
Dona Emília. Vou mandar a senhora pra fazer uma ultra e encaminhá-la direto pra
ginecologia, está bem?
Ela
desceu da maca, me puxou pelo braço e me deu um beijo na bochecha.
–Ah, eu
sabia que a senhora ia me ajudar!
Uma graça
essa Dona Emília. Ela agradeceu a todos, pegou sua bolsinha preta de alça curta
e o papel que lhe entreguei, e saiu toda feliz pela porta afora. Coloquei
Matheus pra preencher o prontuário dela, e fui chamar a próxima paciente,
quando tocou o telefone. Rose atendeu e falou com alguém do outro lado da
linha. Colocou a mão no bocal e perguntou:
– Dra.
Marina, tão precisando da senhora lá na enfermaria.
Peguei o
fone. Boa coisa não era. Eu tinha que subir urgente pra resolver um problema
que tinha surgido. Deixei Matheus encarregado dos próximos exames e subi.
Na saída
do elevador recebo a notícia.
– Dra.
Marina, aquela cracuda...
– O termo
correto é drogadicta. – corrijo.
– Então.
Aquela cracuda drogadita...
Ai meus
sais, desisto.
–
...Meteu o pé!
Olhei a
enfermeira.
– Como?
– Primeiro,
a mãe da paciente apareceu e disse que a filha é viciada em crack, e que não
sabe quantos filhos ela já teve. A paciente, ainda segundo a mãe, tem 30 anos e
já deve ter tido uns oito rebentos. Disse que ela leva os bichinhos pra rua e
lá mesmo eles desaparecem. A família não sabe onde as crianças estão.
– Sei e
depois disso?
Continuamos
caminhando pelo corredor.
– A avó
estava ajudando a olhar o bebê enquanto eles colhiam sangue por causa da suspeita
da paciente ser tuberculosa.
Okay.
Vamos lá Marina. Vai desenhando aí na cabeça.
– Aí foi
que aconteceu. A mãe trocou de roupa com a filha, deu o crachá de visitante pra
ela que se pirulitou do hospital. Não voltou mais. Tá uma confusão dos infernos
por conta disso.
Que
bonito!
– E o que
a avó diz disso tudo? Por que ela deixou a filha sair?
– Disse
que a filha pediu pra sair porque precisava dar uma fumadinha, e que ia voltar.
Mas, não voltou.
Ai,
minhas energias vitais. Dá-me paciência...
– E
ninguém viu a manobra?
– Doutora,
como? Não tem gente suficiente pra fazer o trabalho de enfermagem, que dirá
bancar a babá das pacientes.
Chama o
serviço social, o conselho tutelar, o juizado de menores, os bombeiros, o Homem
de Ferro, sei lá quem é o seu herói predileto. Mas chama agora!!! Foi nessa
vibração que entrei no quarto da enfermaria e enfrentei a avó desmiolada. Após
a ameaça de chamarmos a polícia, ela pediu uma hora de prazo e foi em busca da
filha. Uma hora depois voltaram as duas, com cara de arrependimento.
Meu coração
nem se comoveu. Afinal, eu tinha segurado nos braços o bebê, tão bonitinho,
tão desprotegido. Elas vinham atrás da criança. Olhando as duas,
seriamente, falei:
– Sinto muito, o bebê foi para a unidade neonatal. O conselho tutelar está
aguardando vocês. Não vou aceitar a senhora de volta. Isto é uma maternidade,
não um hotel ( 1 estrela, ). O problema saiu da minha esfera de atuação. Agora
vão se entender com o juiz.
Virei as
costas e saí. Tem horas que uma capa voadora ajudaria.
Depois de
quatro dias, fiquei sabendo que o juizado de menores deu a guarda da criança
para a avó. Boa sorte para o bebê. Espero que ele não vá parar debaixo de um
dos viadutos da cidade e se torne invisível para a sociedade, para o Estado. Na verdade, a quantidade de bebês que vivem
nas ruas criados por esses zumbis, daria pra encher um estádio...desses
bonitões que estão sendo construídos para a Copa.
E haja
cartaz e passeata pra falar de tudo isso!
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