Cap 17- Será que vamos conseguir?
Conversa em plena manifestação
Por sorte,
o tiro de bala de borracha não atingiu o olho. Na barriga, uma extensa queimadura causada por uma bomba de efeito moral...ou imoral? A sala totalmente lotada de
pessoas feridas, tanto pelos confrontos quanto pelo movimento normal da
emergência, tem um ar de filme hollywoodiano. Posso sentir o medo das pessoas.
De repente, comecei a ouvir gritos vindo da recepção. Uma das assistentes de enfermagem que entrou correndo na sala, me avisou.
– Dra.
Marina, as pessoas estão se refugiando dentro do hospital. A recepção está um
caos e já estão invadindo os corredores internos.
Enquanto
limpava o rosto do rapaz e tentava verificar a extensão do dano que a bala
causara, senti uma sensação de medo me apertando a barriga.
– E a
segurança?
–
Tentando evitar que a polícia entre no prédio. A polícia quer entrar pra buscar
os manifestantes.
Era só isso
que precisávamos. E não tinha o que fazer. Olhei em volta e tive raiva. Tivemos
que chegar a esse ponto pra tentar melhorar as condições do país? Ao mesmo
tempo senti orgulho daqueles jovens. Quase beijei o rapaz na minha frente.
Nesse
momento ouvi o estrondo e senti imediatamente os efeitos do gás invadindo a
sala de emergência. Meus olhos começaram a arder e tive problema para respirar.
As pessoas estraram e desespero sem saber para onde correr. A enfermeira que
estava no final da sala, abriu a porta traseira e começou a gritar para que
todos corressem para lá. Algumas pessoas, muito feridas, foram ajudadas por
médicos, enfermeiras e outros pacientes que estavam em melhores condições.
Por alguns
segundos fiquei atordoada. Sem saber exatamente o que estava acontecendo, corri
em direção à porta e saí no corredor interno. As pessoas gritavam, esfregavam
os olhos e cobriam o nariz com o que podiam. Tentei manter o foco e ajudar para
que todos subissem para o próximo andar, longe da fumaça.
Quando
cheguei ao segundo andar, me vi dentro de uma enfermaria. Alguns pacientes
tinham levantado para ver o que estava acontecendo, médicos e enfermeiras
tentavam controlar a invasão de pessoas, que tossiam e lacrimejavam. Mas, longe
da fumaça os efeitos começavam a diminuir. Meu coração parecia que tinha
desistido de ficar dentro de sua cavidade e queria sair pela boca. Pensei no
meu filho e tive medo. Será que Rafa estava seguro no nosso apartamento? Procurei
meu celular e vi que na correria ele caíra do meu bolso. Foi aí que vi a moça,
sentada num canto, o rosto sangrando e o olhar perdido.
Ela era muito
jovem, talvez uns vinte anos, pensei. Corri até ela, me ajoelhei e perguntei o
que tinha acontecido. Ela me olhou e vi que estava em choque.
– Eu só
queria voltar pra casa. Eles jogaram a bomba em cima de nós. Eu só queira
voltar pra casa.
Retirei
gentilmente a mão que ela mantinha tampando o olho esquerdo. Tive quase certeza
que ela havia perdido aquele olho. Digo quase, porque medicina não é
matemática, mas meu instinto dificilmente falha. Aquela moça, jovem, bonita,
nunca mais veria por aquele olho.
Ajudei-a a
levantar do chão e voltamos para a sala de emergência. Ela precisava de
atendimento imediato. Se havia alguma chance de salvar aquele olho, a rapidez
no atendimento era crucial e eu não fazia ideia do tempo que ela estava
ferida.
O barulho
fora do hospital era pavoroso. Ainda podia ouvir o barulho de bombas explodindo.
Encontrei um dos seguranças na porta da sala.
– Arthur,
vocês estão conseguindo controlar a entrada do hospital?
Arthur,
alto e forte, me olhou com medo nos olhos.
– Doutora,
a situação é bem preocupante, mas os próprios manifestantes estão impedindo a
polícia de entrar. Lá fora é uma cena de guerra de filme. A senhora não vai nem
acreditar se for lá.
Ir lá fora era uma ação totalmente fora dos meus planos.
Entrei na sala e avisei que precisava do oftalmo com urgência. Comecei o
procedimento de limpeza do ferimento e vi que minha mão tremia um pouco. Foca, Marina. Engole o medo e foca.
– Qual o
seu nome? – perguntei a ela.
– Alice.
Alice
estava tremendo, indicando piora no estado de choque.
– Eu só
queria voltar pra casa. Não fiz nada errado...cantamos o hino. Eles jogaram a
bomba.
Para mim, Alice era o próprio hino. Tive muito orgulho dela, indo às ruas exigir melhorias para o país, exigir que a corrupção tenha um
fim e o país consiga, finalmente, crescer. Alice era o Hino Nacional, ali,
deitada naquela maca, com seu olho destruído.
Meus olhos
começaram a chorar, e não era por causa do gás. Quem vai se responsabilizar
por isso? Quantos outros jovens terão que se ferir para mudar o rumo do país?
Será que vai valer a pena? Será que vamos conseguir?
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