Cap.19 - Alalaô, mas que calor!
Alalaô, mas que calor ôoooooo!
Euzinha, saí do plantão, passei em casa, coloquei um vestido preto e fiz uma maquiagem rápida, que seria de bruxa e ficou parecendo uma louca desvairada, mas tudo bem. Peguei o Rafa, vestido de pirata, e lá fomos nós para o baile de carnaval da
escola. Tão empolgada…
Pra variar, o trânsito parado, motoristas mal educados e sabidinhos tentando cortar todo mundo. Aff! Mundo
cão.
Enquanto o rádio tocava uma música pra distrair o Rafa, eu relembrava os
atendimentos do dia, especialmente o de Francielle. Infelizmente, ou felizmente, ela perdeu o
bebê - o cytotec demorou mas fez o trabalho. A assistente social me contou que ela saiu do hospital direto para uma cidade do interior, onde mora a família da avó materna, junto com sua mãe e irmã. Essa foi a solução que encontraram para escapar da fúria dos "pais" do bebê. De repente, meu Pirata arregala um
único olhinho verde, e me solta essa:
– Mãe, aquela ambulância parece com
a do seu trabalho.
Inocente. Eu já ia dizer que todas
as ambulâncias são iguais quando percebi que, realmente, eu conhecia aquela
especificamente. Não pela ambulância em si, mas pelo motorista que estava do
lado de fora.
Eis a cena: a ambulância parada no
acostamento, a porta traseira aberta, Sócrates, o motorista olhando para dentro
da ambulância, de onde sai a enfermeira Miriam, pessoa da minha estima. Meu instinto me avisou para olhar em frente,
ou para as nuvens acima, mas não teve jeito. Mesmo que eu quisesse ignorar, o Pirata
estava muito animado com a cena.
Parei, euzinha, no acostamento atrás
da dita cuja. Desliguei minha máquina possante, proibi o Rafa de descer do
carro e desci desfilando minha fantasia de mãe maluca. Fui recebida por uma lufada de ar quente, que deve ter vindo diretamente
dos infernos. O sol tratava de fritar qualquer coisa que estivesse exposta,
inclusive minha cabeça.
– Olá, pessoal. O que tá rolando por
aqui? festinha?
Miriam não estava com cara boa não, mas caiu na gargalhada quando me viu. Depois se recompôs diante do meu olhar inquisidor (afinal o que havia de engraçado ali?), e colocou as mãos na cabeça. Miriam até merecia um Oscar pela rapidez na mudança facial.
– Dra. Marina, graças a deus!! Foram
os santos que lhe colocaram aqui.
Discordei mentalmente, afinal, os
santos são bonzinhos e não iam querer me ver no engarrafamento regado a um
calor de 42 graus. Mas, tudo bem. Ela continuou:
– A ambulância quebrou e ninguém
consegue chegar aqui pra nos socorrer. Tem uma gestante lá dentro, gêmeos,
hipertensa, que estava sendo transferida pro Hospital Consolação. Ela entrou em
trabalho de parto na hora que o carro quebrou. Acredita nisso?!
Claro que eu acredito. Drama
hollywoodiano completo.
Sócrates, que estava com a cabeça
enfiada dentro do motor, veio limpando as mãos com um pedaço de pano e apontou
pro meu carro. Era o Rafa que, lá de dentro, fazia gestos de peloamordedeusmedeixasairdaqui enquanto batia no para-brisa. Fiz sinal pra ele ficar quieto.
Entrei na ambulância. Miriam não
estava mentindo. Sofia, o nome da gestante, segundo o prontuário, decidira liberar os pimpolhos. Que beleza!! E aí vem a dúvida...fico e faço
o parto, coloco Sofia no meu possante e corro pro hospital...hum
Se correr o bicho pega, se ficar o
bicho come.
A verdade é a seguinte. Gêmeos e
hipertensão. Decisão fácil.
Eu e Miriam tratamos de colocar
Sofia e seu barrigão dentro do meu carro, onde o Pirata pulava de felicidade.
Entre “ais” e “uis”, Sofia conseguiu entrar e Miriam sentou-se ao lado dela.
Rafa teve que vir no banco do frente, o que levou-o ao Nirvana sem escalas.
Sócrates deu uma de manobrista, e me ajudou a colocar o carro na pista
contrária, na direção do hospital de onde eu havia
saído a apenas duas horas atrás.
Rafa perguntou se podia abrir a
janela e fazer barulho de ambulância. Eu me fiz de surda enquanto no banco de
trás a festa começava a ficar ainda mais animada.
Alalaôooooo
A ser continuado...
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