Cap. 15- Dia de decisão - Parte 2


Decidir é um dos grandes problemas da humanidade. Somos seres agarrados ao passado, cujo futuro, inclusive o próximo segundo, é uma incógnita e que não temos tempo para viver plenamente o presente. Temos uma dificuldade enorme em decidir puramente pelo medo de errar. Mas errar é humano, não é mesmo?

Uma hora de observação e a paciente, Camila, não mudou o quadro. O bebê entrou em grave sofrimento fetal e a decisão foi tomada. Cesárea para tentar salvar pelo menos um dos dois.

A primeira necessidade básica, era um maqueiro. Pasmem...nós tínhamos uma maca disponível. Pedimos um maqueiro com urgência.

– Doutora, só tem um maqueiro na emergência toda. Eles entraram em greve.

– Ué, eles não tinham saído da greve semana passada?

– Não doutora. Semana passada foi o pessoal da limpeza e na anterior, a vigilância.

Ah, entendi. Eles atrasam os salários do pessoal por escalas porque aí as greves não coincidem, né? Então é isso. Engraçado que isso não sai nos jornais... Mas, não faz mal. Um rapaz, de algum setor que não faço ideia, vai passando e aviso que ele, agora, é o maqueiro. Minha avó diz que onde tem homem, mulher não faz força.  E assim marchamos para o centro cirúrgico.

Ana, a residente entrou primeiro, enquanto preparávamos a paciente. Um minuto e o telefone interno toca.

– Dra. Marina, os anestesistas estão perguntando se dá pra esperar. Aqui tá uma loucura. Tem baleado, esfaqueado, queimado...

Olho para Camila deitada na maca e nem respondo. Decido entrar. Dou de cara com meu anestesista “predileto”, Dr. Luciano. Ele me olha enviesado e sei bem o que ele pensa. Que nunca sei esperar minha vez, que me acho isso, aquilo, blá, blá, blá. Mas estou sem tempo para esses melindres e pergunto animadamente ao grupo:

Quem vai anestesiar uma cesárea de urgência, eclâmpsia, comatosa, 13 anos, sofrimento fetal...

Dr. Luciano não podia deixar passar.

– Ei, menos aí Marina. Estamos lotados de trabalho aqui. Não dá pra esperar?

– Façamos o seguinte, Dr. Luciano. Venha aqui dar uma olhadinha e faça seu próprio julgamento.

Odeio desperdiçar palavras...

E assim ele fez. Uma olhada para o filete de gente deitado na maca e ele voltou ao centro cirúrgico para iniciar os procedimentos para a anestesia geral. Assim que eu gosto!

O bisturi abriu a primeira camada de pele. Me espantou o tamanho de Camila. Algumas meninas já são praticamente mulheres aos treze anos, mas ela era uma coisinha à toa, tentando terminar o desenvolvimento. Pouco depois retiramos o bebê, um menino em estado grave, asfíxico, mas vivo. As pediatras praticamente o arrancaram das minhas mãos. Não dava pra ter tirado antes não? Porque esperaram tanto? Elas estavam bem chateadas, eu sei. Mas, como já disse, decidir não é fácil, e nós usamos nosso melhor julgamento. Olhei o pedacinho de gente, silencioso, enquanto elas o enrolavam e começavam os procedimentos de urgência. Torci por ele. De verdade. Levantei a cabeça e olhei para o Dr. Luciano, do outro lado da mesa. Ele balançou a cabeça positivamente. Camila estava estável. E aí me concentrei em suturar a mãe. Me empenhei na sutura. Não queria que ela ficasse com uma cicatriz mal feita. Ela teria outras cicatrizes para se preocupar, caso sobrevivesse.

A primeira fase da batalha estava terminada. Na saída do centro cirúrgico, Gabriel, um dos residentes, me abordou.

– Dra. Marina. O leito que estava sendo preparado pra sua paciente, já era. O paciente que estava pra sair da vaga, afundou.

Suspiro...

– E na emergência?

– Tem um leito, mas não tem respirador disponível.

Esse é nosso maior tormento. Você consegue salvar uma vida e depois não sabe se vai poder dar-lhe o tratamento merecido e necessário.

Muito bem menina. Vamos ver se você tem um bom anjo da guarda.

Liguei para alguns amigos que estavam de plantão, usando minha lista de ouro do celular.  Tem horas, como essa, que depender da central reguladora é simplesmente impossível. E vou dizer: o anjo da guarda dessa menina deve ser bonitão e carismático, porque a vaga apareceu! Ufa! Respira Marina.

A ambulância chegou e Camila foi removida do centro cirúrgico, dando lugar a outro paciente. Eu sei que aquela vaga era de outra pessoa, mas não fiquei com a consciência pesada. Se o mundo fosse justo e perfeito, meninas de treze anos não ficariam grávidas, hospitais teriam capacidade e qualidade para receber seus pacientes de forma humana e eu teria nascido com o rosto da Angelina Jolie.

Finalmente, exausta mas com senso de dever cumprido, fui para o quartinho dos médicos. Agora Camila e o bebê estavam nas mãos do poder superior. Mais trabalho pro anjo da guarda bonitão. Na porta, Rose comentou:

– Puxa doutora! Hoje foi um dia daqueles, hein? Você deve estar um caco.

Achei forças para dar um sorriso. Rose é uma boa enfermeira. Complementei com uma pergunta:

– Tem café?



PS.: Camila, saiu do coma e voltou para casa. Ela e seu bebê sobreviveram e passam bem. Decisões nunca são fáceis, mas quando tudo termina bem ficamos felizes por tê-las tomado.

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