Cap. 14 - Dia de decisão - Parte 1
O plantão
estava fervendo. Dezoito nascimentos até uma hora da tarde. Será que um dia
entraremos para o Guiness? O bom é que nem preciso me preocupar com academia.
Pra quê? Aqui exercito todos os músculos que preciso e aqueles que gostaria de
esquecer. Me preparo para atacar a pilha de prontuários e chamar a próxima
paciente, quando alguém me grita do corredor.
– Dra.
Marina, telefone!!
Um breve
lampejo de esperança surgiu. Será que era alguém da diretoria avisando que ia
consertar o ar condicionado e nosso chuveiro de água quente? Pode até parecer
estranho. Dois desejos incompatíveis. Mas, não pensem que estou surtando não. É
que trabalhar numa sala fechada, num calor de 40 graus, sem ar condicionado,
deve ser proibido por alguma lei. Sair de um plantão exaustivo, em plena
madrugada, todo sujo de sangue e outros fluidos mais, e ainda ter que enfrentar uma
ducha gelada...não é bacana não, viu?
Vou até a
estação das enfermeiras e atendo o telefone. Mas, do outro lado da linha quem
falava era um obstetra. Minha esperança foi por água abaixo e adivinhei o que
seria: um pedido de vaga.
Dito e
feito.
– Dra. Aqui
é da policlínica do bairro. Estamos com uma gestante de 37 semanas...
Eu sei que
é feio interromper, mas a pilha de prontuários não saía da minha cabeça.
– Olha
Dr...
– Paulo
Henrique.
– Dr. Paulo
Henrique, não podemos lhe oferecer vaga. O senhor tem que mandar um fax pra
central de regulação do Estado. Eles procuram o hospital que tem algum leito
vazio e transfere a gestante.
O homem
suspirou do outro lado da linha e eu reconheci aquele suspiro. Total
impotência, era o nome dele.
– Doutora,
me ajude. Ela está convulsionando desde a hora do almoço. Não temos fax e nem
meios de atendê-la aqui.
Aí, ele
tocou naquele pedacinho macio do meu coração. Gestante, convulsionando...essas
palavras nunca deveriam aparecer na mesma frase. Tapei o receptor e perguntei
às enfermeiras o que elas achavam. Loucura, doutora. Não tem leito vazio e só
saíram três da enfermaria. Todas continuam no pré-parto.
– Tudo bem
doutor. Pode mandá-la que dou um jeito por aqui.
As enfermeiras me
encararam com olhos arregalados. Nem me importo. Todo mundo por aqui acha que
sou meio louca.
Avisei a
todos que se preparassem para a paciente que ia chegar. Meu coração doeu só de
pensar em como seria o estado dos dois, mãe e bebê, quando chegassem no
plantão.
Mas, o
fluxo de pacientes estava ininterrupto. A fome maltratando meu estômago me fez
dar uma pausa pra abocanhar um sanduiche e beber um gole do santo café. Olhei
para o pobre microondas, que deus o tenha. Depois de anos de serviço, se foi
dessa para melhor.
Voltei para
a enxurrada de gestantes. Pelo amor de Santo Augustinho. Essas mulheres já
ouviram falar em camisinha, pílula, tabela, simpatia...sei lá...qualquer coisa
que evite filho?? Na loucura da tarde, só me lembrei da gestante quando deu
seis da tarde. Me virei pra Rose e meu residente, Rafael.
– Gente,
cadê a gestante convulsionando?
Sérgio diz
que sou bruxa. Tenho boca de caçapa. Na mesma hora o som da ambulância inundou
o hospital. Cinco minutos depois terminei o atendimento e saí correndo pelo
corredor. Lá vinha o técnico de transporte empurrando a maca. Levei um susto
quando vi a gestante, que estava realmente convulsionando. Perguntei:
– Quantos
anos ela tem?
– Treze.
Pelos sóis
e terra. O quadro era de um filme de terror. Muito pior do que eu imaginara.
Conversávamos enquanto a maca era empurrada para a internação.
– Desde
quando tá convulsionando?
– Desde a
hora que a gente chegou lá. Mas a sogra disse que quando chegou em casa, na hora do
almoço, ela já estava convulsionando. Não dá pra saber quando começou.
Fiquei
calada e começamos os procedimentos de internação. Não queria explodir em quem
não tem culpa. Que país é esse? Que sistema de saúde é esse? Olha a demora da
ambulância, a falta de estrutura dos hospitais, a falta de um pré-natal decente
que pudesse prever complicações como essa.
Aviso a
recepção que preciso falar com um familiar.
Me aparece
uma senhora, a sogra, e um rapaz de quinze anos, o irmão.
Primeiro
tento a sogra, mas desisto logo. A mulher está em petição de miséria. Pergunto
onde está a mãe da menina. Não tem. E o pai? Também não tem. E o pai da
criança? Tem vinte e cinco anos e não estava presente. Desde quando isso deixou
de ser crime? Agora, foi minha vez de suspirar. Por dentro uma nuvem negra e
enlouquecida ia tomando forma.
Tento o
irmão. Explico, da forma mais calma e simples possível, que a paciente estava a
muitas horas em crise convulsiva, e por isso entrara em coma. Não sabíamos se
ela ia conseguir sair do coma, e nem o que aconteceria caso ela saísse. Era
isso. Não dava pra enfeitar o pavão. Tínhamos esperanças de salvar os dois, e
se não fosse possível, pelo menos tentaríamos salvar a mãe. Ele ficou ali, em
pé, me olhando com olhos apavorados.
O que eu
não disse a ele, mas ficou em mim como uma assombração, é que uma gestante e um
bebê tão descompensados poderiam não ter nenhuma chance. Talvez ela precisasse
ficar no respirador por muito tempo, e o bebê, caso sobrevivesse, talvez nunca
saísse dele. Era uma situação delicada.
A convulsão
fora controlada com os medicamentos e passamos a monitorar os dois. Nos
reunimos e decidimos aguardar um pouco para ver se a paciente se recuperava
e acordava do coma. Todos os olhos
estavam naqueles monitores...torcendo por duas crianças.
FIM DA PARTE 1
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