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Mostrando postagens de 2013

Cap 17- Será que vamos conseguir?

Conversa em plena manifestação O rapaz entrou na sala de emergência com o rosto sangrando muito. Mesmo ali, dentro do hospital, podia ouvir o barulho dos tiros e bombas explodindo. Tentei me lembrar em que país estava. É isso mesmo…estou no Brasil. Por sorte, o tiro de bala de borracha não atingiu o olho. Na barriga, uma extensa queimadura causada por uma bomba de efeito moral...ou imoral? A sala totalmente lotada de pessoas feridas, tanto pelos confrontos quanto pelo movimento normal da emergência, tem um ar de filme hollywoodiano. Posso sentir o medo das pessoas. De repente, comecei a ouvir gritos vindo da recepção. Uma das assistentes de enfermagem que entrou correndo na sala, me avisou. – Dra. Marina, as pessoas estão se refugiando dentro do hospital. A recepção está um caos e já estão invadindo os corredores internos. Enquanto limpava o rosto do rapaz e tentava verificar a extensão do dano que a bala causara, senti uma sensação de medo me apertando a ba...

Cap 16 - Passeata pra que te quero

Rafa pegou uma virose daquelas e chego ao plantão mais morta que viva.   Como foi quase impossível dormir, fiquei assistindo, pela televisão, as manifestações que abalaram o país. Isso até me deu ânimo, sabia? Gostei de ver os cartazes reclamando das condições da saúde pública, entre tantas outras coisas. Será que vai dar jeito? Na maternidade, nada mudou, além do assunto que agora é o mesmo em todos os lugares. A recepção cheia traz a certeza de que teremos que matar leões, cobras e jacarés para atender as pacientes. Mas, isso não é mais novidade. Na sala de atendimento, meu R1 já estava lendo o próximo prontuário. Levantou a cabeça quando me viu e pelos olhos dele eu já sabia que a história que vinha era boa. Matheus tem cara de bebê. Às vezes, até eu tenho dificuldades de acreditar que ele é médico. – Bom dia, Dra. Marina. Olhei para ele e sorri. ­– Fala, Matheus. Que bicho tá te roendo? Ele sorriu, levantou da cadeira pra me dar o lugar e con...

Cap. 15- Dia de decisão - Parte 2

Decidir é um dos grandes problemas da humanidade. Somos seres agarrados ao passado, cujo futuro, inclusive o próximo segundo, é uma incógnita e que não temos tempo para viver plenamente o presente. Temos uma dificuldade enorme em decidir puramente pelo medo de errar. Mas errar é humano, não é mesmo? Uma hora de observação e a paciente, Camila, não mudou o quadro. O bebê entrou em grave sofrimento fetal e a decisão foi tomada. Cesárea para tentar salvar pelo menos um dos dois. A primeira necessidade básica, era um maqueiro. Pasmem...nós tínhamos uma maca disponível. Pedimos um maqueiro com urgência. – Doutora, só tem um maqueiro na emergência toda. Eles entraram em greve. – Ué, eles não tinham saído da greve semana passada? – Não doutora. Semana passada foi o pessoal da limpeza e na anterior, a vigilância. Ah, entendi. Eles atrasam os salários do pessoal por escalas porque aí as greves não coincidem, né? Então é isso. Engraçado que isso não sai nos jo...

Cap. 14 - Dia de decisão - Parte 1

O plantão estava fervendo. Dezoito nascimentos até uma hora da tarde. Será que um dia entraremos para o Guiness? O bom é que nem preciso me preocupar com academia. Pra quê? Aqui exercito todos os músculos que preciso e aqueles que gostaria de esquecer. Me preparo para atacar a pilha de prontuários e chamar a próxima paciente, quando alguém me grita do corredor. – Dra. Marina, telefone!! Um breve lampejo de esperança surgiu. Será que era alguém da diretoria avisando que ia consertar o ar condicionado e nosso chuveiro de água quente? Pode até parecer estranho. Dois desejos incompatíveis. Mas, não pensem que estou surtando não. É que trabalhar numa sala fechada, num calor de 40 graus, sem ar condicionado, deve ser proibido por alguma lei. Sair de um plantão exaustivo, em plena madrugada, todo sujo de sangue e outros fluidos mais, e ainda ter que enfrentar uma ducha gelada...não é bacana não, viu? Vou até a estação das enfermeiras e atendo o telefone. Mas, do outro ...