Cap 21- Que sorte!



Depois da emoção do parto dos trigêmeos, Rafa caiu de cama com um febrão. Acho que foi emoção demais. Vovó veio tomar conta dele porque, para variar, estávamos com poucos médicos na maternidade e eu tinha que ir trabalhar. Ainda tentei que o pai, o dito pai, Marcelo, viesse ajudar. Mas sua nova namorada tinha torcido o pezinho (tadinha), e ele tinha que ficar de babá. Menor paciência...

Entre outras coisas, pedi a vovó que, por favor, não enrolasse o menino no cobertor depois de dar chá. Ela me olhou meio enviesado, e eu tive certeza que assim que virasse as costas, ela faria exatamente o que lhe viesse à cabeça. Paciência. O que não mata, fortalece.

Estava eu, bela e formosa, atolada embaixo de dezenas de prontuários, com a sala de espera lotada e uma paciente na maca de atendimento, quando me entrou pela porta uma moça bonitinha. Era a nova assistente social.

– Dra. Marina. Será que a senhora pode me ajudar. Apareceu um problema aqui e não sei como resolver. O casal tá muito nervoso!

Problema? Numa maternidade pública? No Brasil? Não. Ela devia estar enganada.  A “senhora” não podia não. Mas como eu não posso controlar minha curiosidade e a  mania de meter o bedelho em tudo, respondi:

– Resuma, por favor. Estou mega ocupada.

– Eles insistem em só falar com um médico!

Ai meus sais e minhas pérolas. Terminei o exame da paciente, escrevi a receita e saí para atender o casal nervoso. Pela porta de trás, lógico, senão seria linchada pelos pacientes aglomerados na sala de espera.

A mãe segurando bebê no colo, me olhou apreensiva, enquanto o marido explicava o caso.

– Doutora, tem alguma coisa errada por aqui. O sangue da minha mulher é O positivo, o meu é B positivo, e o bebê é A positivo. Como pode uma coisa dessas? É possível?

Franzi a testa sem querer. Tentei lembrar das aulas de genética. É, não era um prognóstico muito bom. Pensei numa saída honrosa.

– Olha, às vezes o exame pode estar errado. Tipar sangue não é uma coisa tão fácil.

O homem bufou.

– Isso é um absurdo! Que porcaria de hospital é esse que não consegue fazer um exame de sangue decente?

A mulher calada estava, calada ficou.

– Olha, senhor. Essas coisas aconte...

– Coisa nenhuma! Vou processar essa espelunca, isso sim.

Ai. Eu odeio quando me interrompem. O bebê também, pelo visto, porque começou a chorar.

– Calma amor. Deixa a doutora falar.

– Calma, senhor. A doutora só quer ajudar.

A mulher tinha língua, e Ana Clara encontrou a dela. Muito bem.

– Meu senhor, só tem uma solução. Refazer os testes. Vamos colher sangue dos três e tirar a dúvida.

– Furar o coitadinho de novo? Fala sério. Isso é pra acabar com a gente viu. E eu tenho pavor de agulha. Tenho que fazer também?

Sim. esse era o problema. O machão, que falava alto e grosso tinha medo de agulha.

– Hum, hum. Sim, sim. Todos vão colher uma amostra pra poder resolver a questão.

E assim, mandei todos de volta ao laboratório e voltei para meus atendimentos antes que alguém arrombasse a porta. Tá pensando que estou brincando. Já aconteceu algumas vezes. O pessoal aqui é nervoso...

Duas horas depois, me volta a assistente social com os olhos esbugalhados.

– Doutora, saiu o resultado!

Me passou o exame. Fato consumado. Agora era dar a notícia aos os pais. E lá fui eu de novo. Não sei porque gosto tanto de me meter no problema dos outros. Podia deixar a Ana clara, a assistente social bonitinha, resolver. Afinal era a função dela. Mas tive pena daqueles olhinhos apavorados. Eu sou assim, gente. Defensora dos frascos e comprimidos.

Chamei a mulher no canto, contei a história e me preparei para o ataque de nervos eminente, as acusações de troca de bebê, erro de laboratório etc, etc. A mulher, contraditoriamente, me olhou sorrindo e perguntou:

– Doutora, a senhora tem certeza! Pode garantir? Não tem erro?

Afirmei que o exame era final.

– Que coisa boa! Imagine só doutora. Eu estava namorando dois rapazes ao mesmo tempo. Achei que o filho era desse aí, por isso fiquei com ele. Mas na verdade, é do outro que eu gosto! Que sorte!

Virou as costas, serelepe da vida, para informar ao ex-pai que ele estava liberado do cargo.

Ana Clara não conseguia fechar o maxilar. Ganhou experiência e perdeu um pouco da inocência. Ela ainda não viu nada, pensei.

Andando em direção à sala de admissão, tentei segurar o riso.

– Você me deve uma xícara de café, mocinha.

Nós duas caímos na gargalhada. 

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