Cap.20– Alalaô, mas que calor! (Continuação)



E o calor escaldava do lado de fora. O trânsito estava bom, mas, como drama não pode faltar na minha vida, dois carros bateram na minha frente. O trânsito parou enquanto os dois motoristas discutiam. O ar condicionado tentava, com muito sofrimento, manter o carro numa temperatura suportável. E o rafa, lógico, queria ficar se virando para o banco de trás, de vinham os gemidos da grávida.

Miriam, ficou vigiando as contrações de Sofia, enquanto eu saí para o calor do sol e da discussão. Os dois marmanjos espumavam pela boca enquanto o suor escorria pelo rosto e camiseta. Eu fui muito educadamente pedir a eles que trocassem logo suas informações e fossem embora, liberando o trânsito. Dei uma olhada no estrago e vi  que a batida nem tinha sido nada demais.

– Senhores, senhores...não adianta discutir. A polícia só vem se estiver alguém morrendo, e não é o caso. Eu tenho uma mulher em trabalho de parto aí no carro.

Eles me ignoraram completamente, lógico. Então eu me fiz de louca. Subi em cima do meu próprio carro e comecei a gritar. Vale lembrar que eu estava fantasiada de bruxa, e que a maquiagem já tinha escorrido pelo rosto suado. Acho que eu estava meio assustadora, porque eles me olharam com o olho arregalado, entraram nos carros e foram embora. Eu desci do capô, ajeitei o vestido e entrei elegantemente de volta ao meu “quase fresquinho” veículo.

Não deu três minutos, os gemidos aumentaram. Olhei pelo retrovisor. A coisa não estava boa. Eu conhecia bem aquela expressão no rosto de Sofia. Miriam apenas verbalizou o que eu já sabia.

­– Dra. Marina, o primeiro está coroando!

Essa não, pensei. Era hora de parar o carro em qualquer lugar. Mas onde?

– Pardal, mãe! – Rafa, gritou.

Já era. Passei batida.

– Rafa! Você tinha que avisar antes e não na hora que o pardal passa!

Rafa emburrou.

– Doutora. Aí vem o primeiro!

Pela santa misericórdia do pipoqueiro! Subi na calçada e desci do carro. Abri a porta traseira, um homem veio correndo de dentro do prédio e foi logo avisando.

– Moça, não pode estacionar aí não!

Era o porteiro do prédio. Vi que estava em frente a uma garagem. Tarde demais.

Pedi para a Miriam sair. Entrei no carro e vi que o banco estava ensopado com o líquido amniótico. Eu tinha um lençol no carro, mas o Sérgio tirou todas as minhas bugingangas de dentro quando levou pro Lava a jato. Quem mandou ele se meter? Que mania!

– Não, Miriam. Mas precisamos de alguma coisa pra enrolar os bebês.

Escutei uma comoção atrás de mim e vi a enfermeira discutindo com o porteiro. De repente, silêncio. Ouvi a respiração acelerada do moço bem atrás de mim. Ele viu a Sofia de pernas abertas e uma cabecinha saindo de dentro dela. O homem ficou branco e a Miriam teve que amparar ele pelo braço. Bonito...

– Mãe eu posso tirar minha camiseta pra você enrolar o bebê!

Eu já estava visualizando o recém nascido vestido de pirata quando Sofia, entre gemidos, falou.

– Doutora... dentro da minha sacola...cueirinhos.

Claro! Como é que eu não pensei nisso?

Uma forte contração, e a cabeça estava de fora. Sofia respirou fundo.

– Isso, calma, Sofia. Só empurre quando eu mandar, ok?

Miriam estava no banco do motorista segurando o cueiro verde com borboletas amarelas, que tinha pescado de dentro da sacola, embaixo do banco. Rafa, com o tampão de pirata grudado na testa, estava petrificado.

– Uma tesoura! Preciso de uma tesoura.

Miriam gritou com o pobre porteiro pálido.

– O que o senhor tá esperando. Corre lá dentro e traz uma tesoura moço!

O homem saiu correndo de volta para o edifício.

O suor me pingava por todos os poros. Imaginei a maquiagem de bruxa derretendo ainda mais. Que beleza...

Sofia fazia a respiração cachorrinho. Agora, uma contração e pimba! “Vamos lá Sofia, aquela força caprichada!”.  Meu foco total era aquela coisa minúscula que escorregou para minhas mãos. O chorinho encheu o carro. Rafa começou a gritar de felicidade. Miriam me estendeu o cueiro. O porteiro chegou o rosto para dentro do carro, bem ao lado de Miriam. Sem disfarçar o choro, disse que não tinha achado nenhuma tesoura.

Não havia tempo a perder. Agora era conseguir chegar ao hospital antes do segundo bebê resolver sair.

Enrolei o menino no cueiro e coloquei em cima da barriga de Sofia. Mãe e filho ainda presos pelo cordão. Ela, emocionada, passou a mão na cabecinha molhada. Saí depressa do carro e dei de cara com uma plateia gigante, na calçada. Dois carros que tentavam sair da garagem, estavam parados com as portas abertas e os passageiros esticando o pescoço pra ver o que estava acontecendo. De repente, todo mundo começou a bater palmas e alguns choravam desavergonhadamente. Agradeci como se estivesse no palco, entrei, sentei, liguei o carro e apertei o pedal. Afinal, ainda restavam dois. E pelo jeito, estavam com tanta pressa quanto o irmão.

FIM

Comentários

  1. Excelente texto! Estava esperando esta continuação sair!

    Beijos

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