Cap. 22 - Horário de verão, buracos e ambulâncias.

Quem inventou o horário de verão não tem amor no coração, ou gosta muito de praia no fim da tarde. E tenho dito!

Levantar ainda escuro, acordar o Rafa, ficar com pena do Rafa, xingar quem inventou essa sandice, chutar o pé da cama de tanto sono, xingar a cama, brigar com o Sergio porque ele demora no banheiro, não ter tempo de tomar café, brigar com o Rafa porque ele tá demorando a se arrumar, ficar com pena do Rafa porque ainda tá escuro, xingar quem inventou essa sandice... acho que deu pra entender o desenho, né?

Enfim, depois de enfrentar o mau humor do Rafa e o trânsito, chego no hospital para mais um plantão. De cara, três enfermeiras vem me recepcionar no Estar Médico. Hum. Não é bom sinal.

– Bom dia Dra. Marina. Que lindo dia não é? Espero que seu plantão seja calmo, porque precisamos da sua ajuda.

– Hum. – consegui grunhir enquanto colocava a bolsa na cadeira. Como alguém pode estar tão feliz a essa hora da madrugada?

A segunda enfermeira foi mais esperta.

– Olha, Dra. Marina, quer um cafezinho?

Já me ganhou. Só o cheiro que sai da xícara já me anima. Consegui esboçar um sorriso tímido.

– Okay, okay. Falem logo qual é o problema. E me dá essa xícara pra cá. Você me salvou Arlete.

Arlete sorriu, me estendeu a xícara e falou:

– Sabe o que é Dra. Marina. É que a gente tá com um probleminha.

Num hospital publico a palavra probleminha não existe. Aliás não existe nenhum diminutivo por aqui. Só o nome da enfermeira, Sandrinha, que entrou no diálogo.

– Nós temos uma paciente com suspeita de abdômen agudo. Os cirurgiões pediram que o plantão fizesse todos os exames possíveis e quando tiverem um tempinho, eles vem aqui pra examiná-la e decidir o que fazer.

– Sei. E por que os cirurgiões (raça complicada) não examinam a paciente primeiro e decidem quais os exames ela realmente precisa? – lógico que usei minha voz mais calma e doce.

Sandrinha continuou.

– Sabe o que é doutora. É que durante a noite houve um conflito de interesse numa comunidade próxima e recebemos cinco baleados. E teve, também, um acidente envolvendo um ônibus e dois carros com vários feridos. Os cirurgiões estão ocupados desde a madrugada e acham que ainda demora algumas horas pra saírem do centro cirúrgico. Aí a gente pensou se a senhora podia dar uma ajudinha.

Adoro como a enfermagem é politicamente correta. Conflito de interesses, leia-se: briga entre traficantes pelo poder do tráfico na favela. Ajudinha: pacientes furiosos porque não tive tempo de fazer nada no meu plantão. Mas enfim, não quero que pensem que não gosto de ajudar o próximo.

– Tudo bem. E como posso ajudar, já que, claramente, essa paciente não é da obstetrícia?

Nesse momento, entra na conversa a terceira enfermeira,  Danuza.

– A paciente precisa de uma tomografia.

– Sim. Elabore. – continuei.

– E o nosso tomógrafo tá quebrado. Sabe como é, né doutora?

Sei e como sei. De repente elas três me lembraram as fadas da Bela Adormecida. Ri sozinha. Elas não entenderam nada.

– E? – perguntei delicadamente, saboreando meu precioso café.

Arlete toma a palavra.

– Já conseguimos autorização num hospital aqui perto e só precisamos de um médico para acompanhar a paciente. - tudo seguido de um sorriso colgate.

Até que não parece tão mal. Mas como já conheço minha sorte, sei que não será fácil. E assim embarco na ambulância com a paciente, o motorista e a assistente.

Buracos. As pessoas realmente tomam conhecimento da quantidade de buracos que tem nessa cidade? Chegamos no hospital e recebo a notícia de que é preciso autorização do Chefe de Equipe, e que preciso fazer um boletim.

– Mas nós já temos autorização. – reclamei.

– É. Mas o protocolo do hospital exige que o Chefe de Equipe libere e que seja feito o boletim.

Eu já disse o quanto eu odeio a palavra protocolo?

Meia hora depois, entro na sala de espera da tomografia. Uma fila de crianças tira toda minha esperança de sair nas próximas duas horas. Como posso pedir pra passar na frente de coisinhas tão pequenas e doentes? Ah, meu coração jamais permitiria tal coisa. Assim, sento ao lado da paciente e abro a bolsa. Ainda bem que trouxe meu livro de romance água com açúcar.

Exame feito. Voltamos para a ambulância. Dever cumprido. O plantão me espera com uma fila de pacientes, com certeza!

Mas nada é fácil e simples na minha vida. O motorista da ambulância vinha possuído. Gritou, xingou, fez sinal feio com o dedo, gritou, xingou, correu como louco e quase bateu várias vezes. Se a paciente não morreu no trajeto, não vai  morrer mais. Quanto ao meu pobre coração, ficou sem saber se o lugar dele era no cérebro ou no intestino.

Assim que consegui firmar as pernas e entrar no hospital, Arlete, a enfermeira da xícara de café, me encontra no caminho. Dessa vez de mãos vazias.

– Dra. Marina. Que bom que voltou. Estamos com outro probleminha.

Tem coragem essa moça. Disso ninguém pode duvidar.

– Não diga Arlete. Problema? Tem certeza? Não...

Arlete riu. Ninguém me leva a sério.

– Uma paciente de treze anos, grávida, diz que de três dias pra cá parou de enxergar com o olho esquerdo. Precisa de uma tomografia.

Fiquei olhando a Arlete. Será que era uma pegadinha? Mas não era não. Entramos no consultório e fui examinar a menina. Treze anos com cara e corpo de dezoito. Coisa assustadora. Barriga de uns seis meses, arrisquei. Lavei as mãos e olhei para a paciente. Li o relatório.

– Olá, Karina. O que houve com seu olho?

– Não to enxergando nada doutora.

– Assim de repente?

– Isso. De três dias pra cá fiquei ceguinha desse olho.

Olhei a menina. Olhei a mãe que a acompanhava.

– Vamos fazer um exame...

– Nem adianta doutora. Já disse que não enxergo nada.

– Mas de qualquer forma...

– Já falei doutora! Não enxergo!

Alguém segura minha mão pra eu não puxar a orelha dessa menina, por favor. Odeio quando me interrompem e, pior, quando gritam comigo. Senti o sangue borbulhar nas veias. Ignorei-a e comecei o exame. Ela continuou firme e forte com a história da cegueira embora o exame estivesse perfeito. Mas já que a autorização estava pronta e eu não queria ser linchada  e acusada de abuso de poder, lá fomos nós para a ambulância novamente. Eu, já apavorada de enfrentar o motorista enlouquecido novamente.

Mas era outro motorista. Suspirei, aliviada.

– Oi doutora, tudo bem? Mais cedo tive um probleminha e meu amigo me substituiu. Agora eu vou levar vocês, não se preocupe. Em cinco minutinhos eu chego lá! Ninguém conhece mais essas ruas do que eu.

Comecei a colocar o cinto de segurança, sem saber se eu queria chegar lá em cinco minutos.

– Não precisa não doutora! Eu sou excelente motorista. Num piscar de olhos a senhora chega lá sã e salva.

– Eu só ando de cinto. É a lei, o senhor entende, né?

Ele deu de ombros. E não estava mentindo. Fiquei conhecendo todas as calçadas e becos entre os dois hospitais. Esquece os buracos. Descobri que tinha coisa pior.

– Tá vendo só? Faço essa contramãozinha. Não tem guarda não, doutora. Tá tranquilo.

Tranquilo. Acho que no dicionário dele essa palavra tem outro significado. Outro passeio desse e juro que minhas coronárias não resistiriam.

– Mas por que você não vai pelo caminho normal?

– Imagina doutora! E enfrentar aquele trânsito todo?

E assim chegamos no hospital, fiz o boletim, pedi a autorização do Chefe de Equipe que me olhou de um jeito engraçado. Não entendi qual a graça. Sentamos na sala de espera, li mais uns capítulos do meu romance, fizemos o exame. Nada. Tudo perfeitamente em ordem com os olhos de Karina.

Chamei a mãe num canto pra assuntar o que havia acontecido com a filha. Ela me disse, na maior calma do mundo, que Karina e o namorado tinham brigado feio, três dias atrás. Desde então ela tinha parado de enxergar.

Ah sei, pensei. Virei para a paciente e fiz meu pequeno discurso.

– Bom. Agora vamos para o hospital te internar, dar umas injeções, colocar você no soro e ver se sua visão volta.

Ela, inocentemente, me olhou e disse:

– Precisa não doutora. Já to enxergando tudo. Esse exame é bom mesmo!


Depois reclamam da minha falta de paciência. E ainda por cima no primeiro dia de horário de verão.

Comentários

  1. Fantastico!...mas so de pensar no dia a dia dos profissionais da saude no Brasil, me arrepia! e' preciso ter muito mais do que coracao, sangue, etc Parabens Dailza, sempre boas as suas historias. Bjs

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